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A Arábia Saudita está ardendo, mas não pegou fogo

A Arábia Saudita está ardendo, mas não pegou fogo

Sauditas xiitas discutam com um policial durante uma passeata
em Al-Qatif, Arabia Saudita, no dia 11 de marco, 2011. (Reuters)


A família real da Arábia Saudita parece estar contendo a onda regional de revoltas contra governos autocráticos, ainda que permaneça a questão: “por quanto tempo?”, escreve Rashid Abualsamh

O “Dia do Ódio”, convocado em 11 de março na Arábia Saudita por ativistas pró-democracia exigindo uma monarquia constitucional, um parlamento eleito, uma constituição escrita e várias liberdades, terminou se esvaindo quase sem qualquer estrondo. Uma presença maciça da polícia nas ruas das principais cidades sauditas, incluindo helicópteros sobrevoando-as, e uma campanha agressiva de relações públicas pelo governo, alertando que potenciais manifestantes enfrentariam a prisão e possível chicoteamento, garantiram que quase ninguém aparecesse nas ruas.

“Acho que os manifestantes estavam enfrentando o desafio de realmente sair para as ruas. Trata-se de uma experiência que eles nunca haviam tido, e eles poderiam ter imaginado que seria como no Egito ou na Tunísia, mas havia uma perversa campanha demonizando qualquer um que ousasse pensar em protestos”, disse Abeer Mishkhas, uma jornalista saudita que mora em Londres.

Outros duvidavam da autenticidade dos organizadores do “Dia do Ódio”, que haviam formado diversos grupos no Facebook para angariar apoio. “Foi difícil, para mim, levar a sério as chamadas para protestos, já que as duas comunidades do Facebook responsáveis por elas simplesmente pareciam muito amadoras. Ninguém sabe quem estava por trás desses grupos. Os grupos também possuíam muitos membros não sauditas”, disse Ahmed Al-Omran, um popular blogueiro saudita, atualmente estudante de pós-graduação em jornalismo em Nova Iorque.

Com efeito, muitos sauditas que apóiam a família real tentaram explicar os não eventos do dia 11 de março como provas da lealdade e amor que a maioria dos sauditas sentiria em relação ao rei Abdullah Ibn Abdul-Aziz Al-Saud, o monarca absoluto do reino. Tareq Al-Homayed, editor-chefe do jornal Asharq Al-Awsat, escreveu em sua coluna que os sauditas mostraram sua aliança com o rei e o país ao não saírem às ruas para protestar na última sexta-feira.

“A realidade é que não houve caos antes de sexta-feira, mas o que vimos de fato foi uma forte onda de incitamento e confusão, bem como uma tentativa desesperada por parte de alguns – que agora foram expostos – em promover uma mentira, qual seja, o ‘Dia do Ódio’ na Arábia Saudita. Todos ficaram surpresos quando este dia do ódio se revelou uma silenciosa bayaa (cerimônia realizada em sociedades islâmicas em que o público endossa formalmente o domínio de um líder), na qual se viu o povo saudita expressar, sem palavras, o apoio à sua liderança”, escreveu Al-Homayed.

No entanto, o rei Abdullah está preocupado com a possibilidade de que as revoluções recentes na Tunísia e no Egito, bem como os violentos protestos xiitas em andamento no vizinho Bahrein, afetem o reino, tanto assim que anunciou um pacote de auxílio econômico de 37 bilhões de dólares após retornar ao país, algumas semanas atrás, de um período de três meses de tratamento médico em Nova Iorque. Funcionários do governo receberam a promessa de um aumento salarial de 15% e bilhões de riais foram destinados para ajudar os sauditas mais pobres a financiarem a construção de novas casas.

Entretanto, muitos sauditas criticaram esse pacote de auxílio econômico como insuficiente e tardio, ressaltando que o que vários sauditas de classe média desejam é um maior poder de fala e influência no modo como o país é administrado, a transparência no governo e a responsabilização de oficiais corruptos.

“O rei Abdullah não percebe. Comprar lealdade é algo que ele cresceu fazendo e continua a fazer a despeito do fato de que já recebeu pressões, muitas vezes antes e desde que se tornou rei, em prol da monarquia constitucional, prestação de contas (accountability), transparência, eleições, liberdade religiosa e direitos para as mulheres”, disse Ali Alyami, diretor executivo do Centro para a Democracia e Direitos Humanos na Arábia Saudita, localizado em Washington.

Mishkhas afirmou ser cético quanto ao pacote de auxílio econômico: “As pessoas descobriram que há muitos furos nesse pacote e, ao final, se deram conta de que ele não dava a elas o que havia sido prometido. O aumento salarial para os funcionários do governo era algo que alguns deles já vinham recebendo ocasionalmente como ajuste de custo de vida. Mas, agora que ele se tornou permanente, as pessoas foram informadas de que deduções seriam feitas em suas pensões e em outras coisas, de maneira que, no fim das contas, o aumento não aconteceu efetivamente”.

A maioria dos protestos recentes no reino foi levada a cabo por membros da minoria xiita na província oriental do país, onde está a maior parte das suas reservas de petróleo. Tais protestos exigiam a libertação de suspeitos de terrorismo há anos presos sem julgamento, bem como a melhoria das condições de vida. Respondendo por cerca de 10 a 15% da população saudita de 27 milhões, os xiitas têm tradicionalmente enfrentado preconceito contra suas práticas religiosas e no acesso a cargos públicos no país de maioria sunita.

Alguns observadores estrangeiros teorizaram que as revoltas populares no Egito e na Tunísia poderiam representar uma ameaça similar à família real no poder na Arábia Saudita. Essa incerteza, somada à perda de 1 milhão de barris produzidos diariamente pela Líbia, que está passando por sua própria rebelião popular, levou os preços do petróleo para acima de 110 dólares por barril nas semanas que passaram. Ainda sim, o apoio ao rei Abdullah é forte entre a maioria dos sauditas. No entanto, muitos estão frustrados diante do rígido código moral mantido pela polícia religiosa com apoio do governo, um índice alto de desemprego que alcançaria 40% dos homens sauditas entre 18 e 25 anos e a falta de liberdade de expressão.

Mas, mesmo com estes significativos problemas, alguns jovens sauditas se ausentaram das ruas por temer o possível caos que acompanha protestos públicos. Eles acreditam que o país não tem uma tradição de manifestações públicas e afirmam que os ativistas pró-democracia estão imitando o Ocidente sem adaptar suas demandas aos costumes locais.

Um deles é blogueiro de Jeddah Qusay Fayoumi, 36 anos, que escreveu recentemente que “os ‘jovens ativistas online’ estão desconectados da realidade. A maior parte deles não mantém relações com as pessoas comuns… Imaginem se Martin Luther King tivesse seu sonho, mas nenhum seguidor…Ainda que alguns ativistas online estejam fazendo um trabalho bom e admirável, a maioria está pressionando por um estilo ocidental de liberdade (o que quer que isso seja), influenciados por aquilo que viram e leram, daí o rótulo de ‘taghrebi’ para aqueles que têm vontade de ser ocidentalizados, uma versão saudita do Tio Tom americano. Entretanto, não é a isto que o saudita comum está exposto, não é isto que ele ou ela desejam, não é isto que o/a atrai”.

Alyami acredita que os sauditas estejam assustados demais para protestarem publicamente devido a décadas de domínio rígido da família real e de seus aliados religiosos. “Medo, segurança pesada e falta de confiança entre manifestantes potenciais desempenharam um papel fundamental no fracasso dos protestos. Os sauditas estão aterrorizados, temerosos quanto a reprimendas governamentais brutais”, disse Alyami.

Os governantes sauditas têm mais uma carta na manga de que devem fazer uso em breve. As eleições municipais, realizadas em todo o país em 2005 em resposta à pressão do governo de Bush pela introdução de alguma democracia no reino, poderiam ser anunciadas para esse ano. Há seis anos, homens sauditas elegeram metade dos conselhos municipais para o que deveria ter sido um mandato de 4 anos. As eleições para a escolha de novos membros em 2009 foram silenciosamente canceladas e pouco foi dito a respeito delas desde então. São abundantes os rumores de que as mulheres terão o direito de votar nessas novas eleições, embora, como nas anteriores, não poderão se candidatar.

Mas a sinceridade da família real no desejo de implantar reformas políticas democráticas é questionada por alguns. “Abdullah não é um reformador. Tudo que ele fez foi legitimar seu comando através da implementação de nomeações e decretos cosméticos”, disse Alyami. “Dada a ampla reforma árabe, Abdullah não terá escolha senão dar alguns passos para apaziguar seu povo irritado e excluído. Sim, penso que as eleições canceladas serão ressuscitadas e que as mulheres terão o direito de votar e permissão para dirigir. Esses passos serão suficientes para aplacar as aspirações de milhões de jovens homens e mulheres sauditas? Não.”

Mishkhas tem dúvidas quanto à possibilidade de realização das novas eleições. “Não creio que acontecerão. Parece que o governo está determinado a subornar as pessoas com dinheiro. Não ouvimos nada sobre reforma política, e meu palpite é o de que há uma forte oposição quanto a esta”, explica ela. Um número relativamente pequeno de sauditas continuará a protestar pela libertação de prisioneiros políticos e por reformas políticas. Mohammed Al-Qahtani, fundador da Associação de Direitos Civis e Políticos dos Sauditas, disse a um programa noturno da BBC na semana passada que há 30.000 prisioneiros políticos no reino. O governo saudita afirma haver apenas um terço desse número. “O ódio ainda está lá, e vimos isso em Riade no domingo, quando centenas de cidadãos sunitas se reuniram diante do Ministério do Interior para exigir a libertação dos seus parentes. Eles decidiram se encontrar lá todos os domingos”, disse Ali Al Ahmed, diretor do Instituto para o Golfo, Washington, DC.

Portanto, uma revolução na escala daquela que aconteceu recentemente no Egito e na Tunísia não deve ocorrer em um momento próximo na Arábia Saudita, ainda que, com uma juventude crescentemente conectada e sedenta por um melhor governo e por menos corrupção, o potencial para a revolta permaneça. O fato de que o rei Abdullah está com 88 anos, o príncipe herdeiro Sultan nos seus 80 e poucos e o terceiro na fila para a Coroa, o príncipe Naif, que é também o ministro do interior linha-dura no país, com 80, significa que muitos observadores estão preocupados com quem irá suceder estes homens após sua morte. A família real diz possuir um plano de sucessão bem definido, mas o quão tranquilamente ele será levado a cabo, quando chegar o momento, continua a ser o palpite de cada um.

Traducao: Gabriel Peters


Para ler o texto original em ingles no Al-Ahram Weekly Online, clique aqui.