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A invasão do Kuwait ainda choca 30 anos depois

Por Rasheed Abou-Alsamh

02 de agosto, 2020

Trinta anos atrás neste dia eu estava no jornal Arab News em Jeddah, Arábia Saudita, quando as máquinas de teletipo começaram a soar o alarme de uma notícia de última hora: As tropas de Saddam Hussein, o ditador louco do Iraque, tinham cruzado a fronteira com o Kuwait.

“Bing! Bing! Bing!,” gritavam as máquinas enquanto imprimiram a notícia chocante em letras vermelhas e maiúsculas. “TROPAS IRAQUIANAS INVADEM KUWAIT!” Este alarde durou por vários meses e muitas horas. Cada vez que ouvimos o alarme das máquinas nos corríamos para a sala onde elas ficavam para ver qual era a mais nova desgraça.

Isso era antes da internet, e quase ninguém tinha televisão a satélite. Os únicos meios de comunicação eram o telefone, o telex e estas máquinas de teletipo pelo qual as grandes agências de notícias como a Reuters, Associated Press e Agence France Presse mandavam as últimas notícias para seus milhares de assinantes ao redor do mundo. Algumas pessoas tinham acesso ao canal CNN, e a maioria tinha acesso através do rádio às notícias vindas da BBC e Voice of America. Estes eram as únicas fontes de notícia não censurados.

Por ordem do Ministério da Informação fomos proibidos de publicar qualquer informação sobre a invasão por vários dias, que rapidamente tomou as proporções de uma farsa, já que todo mundo já sabia da invasão. A audácia de Saddam invadir um país árabe e vizinho chocou líderes da região que ficaram sem saber o que fazer ou reagir. Mas uma coalizão liderada pelos Estados Unidos e a Arábia Saudita foi lançada em apenas algumas semanas para lutar e puxar as forças de Saddam de volta para o Iraque.

As forças de Saddam saquearam Kuwait, levando carros de luxo, barras de ouro e obras raras de arte islâmica de volta para o Iraque. Milhares de kuwaitianos fugiram de carro para a Arábia Saudita, procurando segurança e abrigo. Mas mais alarmante, os iraquianos atearam fogo nos campos de petróleo, causando queimadas que duraram seis meses e infligiram um desastre ecológico nunca visto antes. Levou um ano para o Kuwait começar a produzir petróleo para exportação de novo.

Em pouco tempo Saddam começou a ameaçar invadir os campos de petróleo sauditas na província Leste do país. Isso causou pânico e calafrios não somente nos sauditas, mas no mundo inteiro. A economia global naquela época ainda estava muito dependente no petróleo do Golfo, e líderes mundiais temiam os efeitos catastróficos nas suas economias se os iraquianos conseguissem parar a produção saudita.

Por ordem do Ministério da Informação fomos proibidos de publicar qualquer informação sobre a invasão por vários dias, que rapidamente tomou as proporções de uma farsa, já que todo mundo já sabia da invasão.

Todos os voos comerciais para a Arábia Saudita e o Golfo foram suspensos por vários meses por causa da ofensiva militar lançada para expulsar Saddam do Kuwait. Eu lembro entrar em um pouco de pânico, tentando decidir com meus 26 anos de vida — quando os últimos voos estavam saindo do país — se ia ficar em Jeddah trabalhando, ou se ia voltar para me abrigar na segurança do cerrado com meus pais em Brasília. Acabei ficando, mas lembro que todas as pessoas ficaram apreensivas e deprimidas com a incerteza da situação. A nossa atual emergência da pandemia da COVID-19 me lembra daquele tempo.

Enquanto as tropas do Saddam estavam no Kuwait, eles constantemente lançavam mísseis Scud contra cidades na Arábia Saudita. Por isso toda cidade saudita tinha sirenes de Defesa Civil que disparavam cada vez que um míssil estava a caminho. A capital Riyadh e Dammam na parte Leste do país sofreram mais, com alguns mísseis atingindo prédios e estradas. Felizmente para mim, Jeddah e Mecca estavam fora do alcance dos Scuds.

Presidente George H. Bush, amigo próximo da família real saudita, rapidamente viu o perigo do Saddam invadir a Arábia Saudita e talvez chegar até Qatar e os Emirados Árabes Unidos. Com um empenho excepcional, ele conseguiu, junto com os sauditas, juntar uma coalizão de 40 países para lançar a operação militar conhecida como Operação Tempestade no Deserto.

Infelizmente o Brasil ficou de fora desta coalizão por causa dos laços econômicos que tinha com o Iraque. O Brasil exportava armas pesadas e Fuscas para o Iraque, e em troca recebia petróleo iraquiano. A construtora Mendes Júnior também consegui vários grandes contratos para a construção de hospitais, rodovias e escolas. No auge tinha 10.000 brasileiros trabalhando no Iraque. Esta relação próxima começou durante a ditadura militar. Por um certo tempo nos anos 1980 a Iraqi Airways operava um Boeing 747–SP algumas vezes por semana na rota Bagdá-Rio de Janeiro, com escalas técnicas em Amã e Lisboa.

Mas foi desta aliança, que derrotou as forças do Saddam em sete meses, que surgiu as raizes do grupo terrorista Al-Qaeda. Osama Binladen, filho de um clã bilionário e donos de uma gigante construtora com vários contratos para expandir as mesquitas em Mecca e Madinah, que estava a vários anos no Afeganistão lutando com os mujahideen afegãs contra a ocupação dos soviéticos, pediu para o rei Fahd permissão para voltar ao reino para liderar um força islâmica contra as forças iraquianas. O Fahd negou o pedido, e Binladin ficou enfurecido que tropas americanas, e não muçulmanas, iam “sujar” a terra sagrada da Arábia Saudita. Osama nunca mais voltou para a Arábia Saudita, e acabou liderando a organização responsável pelos ataques de 11 de setembro, 2001, nos Estados Unidos.

Cem mil soldados iraquianos morreram nesta guerra inútil e estúpida, alimentada pelos devaneios loucos do Saddam. Mal sabíamos que está guerra seria uma prévia de uma outra guerra contra o Iraque quando os americanos invadiram o país em 2002, atrás das armas nucleares que o Saddam supostamente tinha. Nunca foram encontrados, e muito mais iraquianos morreram nesta guerra feita em nome de vingar os ataques de 11 de setembro.