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A batalha para o Islã no Paquistão

A batalha para o Islã no Paquistão

Apoiadores de Mumtaz Qadri jogam flores em cima da carro levando seu corpo para o enterro, depois dele ser executado no dia 01/03/2016 pelo assassinato de Salman Taseer. (Foto Reuters)

Essa coluna foi publicada no O Globo de 18/03/2016:

Por Rasheed Abou-Alsamh

Mau uso das leis para lançar acusações falsas de blasfêmia deixa pouco espaço para muçulmanos mais moderados e liberais

A libertação de Shahbaz Taseer, no dia 9 de março, pelos seus captores no Paquistão foi um lembrete da guerra que se trava na alma do Islã entre os liberais e os fundamentalistas.

Filho do ex-governador de Punjab Salman Taseer — que foi assassinado em janeiro de 2011 pelo seu próprio guarda-costas por ter defendido uma cristã, sendo acusado de blasfêmia contra o Alcorão —, Shahbaz foi sequestrado nas ruas de Lahore quando ia de carro para o trabalho. Ainda não se sabe quem exatamente o sequestrou, mas diz-se que ele foi entregue aos talibãs paquistaneses, que depois o mandaram para o Afeganistão para evitar as patrulhas do Exército paquistanês na província de Baluchistão. Também se comenta que um resgate de US$ 10 milhões foi pago por sua família, que tem vários negócios, para sua soltura. A irmã de Shahbaz, Sara, confirmou, numa entrevista à BBC, que sua família tinha recebido vários pedidos de resgate.

Por ironia, justamente nove dias antes da libertação de Shahbaz, o assassino do seu pai, Mumtaz Qadri, foi enforcado pelo seu crime. Num país fortemente dividido entre os muçulmanos mais liberais e os mais radicais, Qadri virou um herói para muitos paquistaneses, que acreditam que ele estava defendendo a fé ao atirar mais de 20 vezes em Salman. Mais de cem mil pessoas foram ao enterro de Qadri, jogando pétalas de rosas sobre o seu caixão. E até uma mesquita na capital, Islamabad, ganhou o nome dele. O Exército tentou minimizar o evento, determinando que a mídia não desse destaque à execução.

Essa violência contra Salman, infelizmente, tem uma longa tradição no Paquistão, onde a tensão entre os mais seculares e os mais religiosos paira desde a Independência, em 1947. Ao mesmo tempo, uma tensão entre militares e políticos civis perdura há décadas. O primeiro golpe militar ocorreu em 1958 e, desde então, o país tem tido vários regimes militares. Mesmo quando os civis estão no poder, os militares estão mexendo seus pauzinhos nos bastidores.

Uma das primeiras vítimas dos militares foi o presidente Zulfikar Ali Bhutto, que governou o Paquistão de 1971 a 1973 como presidente, e de 1973 a 1977, como primeiro-ministro. Filho de uma família abastada, dona de propriedades rurais em Larkana, província de Sindh, ele foi deposto em 1977 pelos militares, que o executaram em 1979. Apesar de ser de uma família rica, ele formou o Partido Paquistanês do Povo, em 1967, e seguiu uma forma branda de socialismo, introduzindo um salário-mínimo e previdência social. Além disso, nacionalizou várias indústrias em 1972.

Sua filha Benazir Bhutto seguiu os seus passos, estudando em Oxford e depois entrando na política. De 1988 até 1990, ela foi a primeira mulher a governar um país muçulmano como primeira-ministra, voltando ao poder em 1993-1996. Mas sofria constantes ameaças de morte de paquistaneses conservadores, que não se conformavam por serem governados por uma mulher. Esse ódio contra ela finalmente atingiu-a, num comício eleitoral em dezembro de 2007, quando foi assassinada a tiros.

Esse crescimento de um Islã mais conservador e radical pode ser ligado à Revolução Islâmica de 1979 no Irã e à guerra contra os soviéticos no Afeganistão, também no fim dos anos 1970. O grupo dos talibãs surgiu no Afeganistão nessa época, quando os americanos e sauditas deram armas e dinheiro para apoiar a luta dos afegãos contra os invasores russos. Devido à fronteira porosa com o Paquistão, logo se estabeleceu uma versão local do Talibã. Desde então, o Paquistão tem sofrido uma série de atentados terroristas contra, entre outros alvos, escolas para meninas e acampamentos militares, com extremistas atirando e se explodindo.

O Subcontinente Índio tem legislação contra a blasfêmia desde 1860, quando os governantes britânicos da Índia introduziram tais leis. Elas foram expandidas em 1927, e o Paquistão herdou essas leis por ocasião de sua independência, em 1947. Depois que Zulfikar foi deposto, em 1977, o regime militar do general Zia-ul Haq adicionou varias cláusulas de 1980 a 1986, numa tentativa de islamizá-las. Nas leis originais britânicas, insultar uma religião resultava numa pena de um a dez anos de prisão. O endurecimento nos anos 1980 elevou a pena de cometer blasfêmia contra o Profeta Maomé para morte ou prisão perpetua.

Neste jogo de provar quem é mais piedoso, muitos dos mais religiosos têm usado tais leis contra outros muçulmanos e minorias religiosas, como os Ahmadis, que são uma vertente xiita, e os cristãos. De acordo com a Comissão Nacional para Justiça e Paz, desde 1987, um total de 633 muçulmanos, 494 Ahmadis, 187 cristãos e 21 hindus foi acusado tendo como base várias cláusulas da Lei de Blasfêmia.

Esse mau uso das leis para lançar acusações falsas de blasfêmia — juntamente com os constantes assassinatos de inocentes por terroristas islâmicos — tem deixado muito pouco espaço para muçulmanos mais moderados e liberais se expressarem livremente no Paquistão.

“Muçulmanos moderados têm que ser muito cautelosos, eles têm que ser muito resguardados,” disse Sara Taseer à BBC. “O Paquistão não é um lugar seguro, porque não há consequências para pessoas que são militantes ou agressivas. Liberais estão sendo calados ou expulsos. Eles têm que ter muito cuidado. Muitos amigos meus foram atacados.”

É lamentável que essas leis de blasfêmia no Paquistão não tenham sido alteradas ainda para pôr um fim ao seu mau uso. A triste verdade é que nenhum governo teve ainda a coragem de fazer essa reforma, com medo da reação violenta dos mais conservadores. O país precisa de um Islã mais moderado e menos violento. Somente assim o Paquistão vai ter um futuro mais estável e produtivo.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/a-batalha-para-isla-no-paquistao-18904140#ixzz44KCP9Bt9