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A guerra secreta, via computadores

A guerra secreta, via computadores

A sede da Saudi Aramco em Al-Khobar, Arabia Saudita

Essa coluna foi publicada no O Globo de 2 de novembro, 2012:

Rasheed Abou-Alsamh

As várias disputas e guerras secretas travadas no Oriente Médio, entre Irã e os países do Golfo, e entre Irã, Hezbollah e Israel, estão tomando novas formas além das mais tradicionais como bombas e mísseis. Agora vírus de computador e drones (aviões não tripulados) estão sendo usados para abalar infraestruturas estratégicas e coletar informações.

O Irã confirmou essa semana que estava de posse de vídeos e fotos de instalações militares sensíveis israelenses que foram supostamente tomadas por um drone iraniano lançando pelo Hezbollah no Líbano, e que foi abatido pelos israelenses no dia 6 de outubro no deserto do Negev, onde a estação nuclear de Dimona se encontra.

Isso foi depois de um ataque surpreendente contra os computadores da estatal de petróleo saudita, a Saudi Aramco, no dia 15 de agosto, quando 55.000 deles foram desativados depois que um vírus introduzido no sistema corporativo apagou todos os dados guardados em cada computador e nos servidores, fazendo com que uma imagem de uma bandeira americana em chamas aparecesse nas telas. Por sorte, nenhum desses computadores estava ligado ao sistema operacional dos campos de petróleo. Oficias de inteligência americana foram rápidos em botar a culpa no Irã, mas sem fornecer provas.

Um grupo de especialistas cibernéticos americanos foi levado às pressas para Al-Khobar, na Arábia Saudita, para investigar o rastro de código que o vírus deixou na rede da Aramco.

Os resultados do que eles conseguiram descobrir, até agora, são os seguintes: uma pessoa introduziu o vírus usando um pen drive, já que nenhum dos computadores afetados estava ligado à internet; o código do vírus não é muito sofisticado, e vários erros nele apontam para a probilidade de que tenha sido escrito por uma pessoa só, e que essa pessoa já foi identificada e presa pelas autoridades sauditas enquanto a investigação continua.

Os dedos acusatórios contra o Irã têm muitas razões para fazer isso, já que existe uma mútua inimizade entre a potência sunita saudita e a potência xiita persa. Setenta por cento dos quase 60.000 empregados da Aramco são sauditas xiitas, alguns deles certamente capazes de querer sabotar as instalações da Aramco por vontade própria ou a mando de Teerã. O que é interessante é o fato de o Irã já ter sido vítima de um ataque cibernético em 2010, quando um vírus chamado de Stuxnet foi introduzido na rede de computadores que controlava as centrífugas em Natanz que serviram para enriquecer urânio para o programa nuclear iraniano. O vírus fez com mil de 5.000 centrífugas trabalhassem em uma velocidade acima do normal, causando falhas e com isso conseguindo atrasar o enriquecimento de urânio.

Um novo livro americano publicado este ano confirmou que esse vírus foi disseminado a mando do presidente americano Barack Obama e que ele foi desenvolvido juntamente com os israelenses. E isso sem contar com a onda de assassinatos de cientistas nucleares iranianos por agentes a mando de Israel e dos EUA, que já matou pelo menos três deles nos últimos dois anos.

A Saudi Aramco seria neste contexto um alvo compreensível dos iranianos, dado o fato de que ela controla um quinto de todas as reservas de petróleo no mundo; a rivalidade regional entre Arábia Saudita e o Irã; e ao fato de os EUA serem um aliado importante do reino saudita. E é no contexto de rivalidade regional que agora vemos isso em ação na Síria, onde os sauditas estão apoiando os rebeldes com armamentos e dinheiro, e onde o Irã está dando apoio militar ao regime do presidente sírio Bashar al-Assad. Rebeldes sírios essa semana denunciaram o uso de drones iranianos pelo governo sírio para encontrar alvos a serem bombardeados pelo exército sírio.

O governo iraniano nega estar dando ajuda militar à Síria, e não comentou o uso de drones por lá. Mas a presença de agentes da Guarda Revolucionária iraniana na Síria, que foram sequestrados por rebeldes, e os vôos cargueiros vindos do Irã para a Síria, sobrevoando o Iraque, são indícios muito fortes de que há muita ajuda militar iraniana sendo prestada aos sírios. Alguns dias depois do ataque contra a Aramco, houve outro assalto com um vírus contra os computadores da RasGas, companhia de gás natural no Qatar, o pequeno mas riquíssimo vizinho da Arábia Saudita.

Felizmente, de novo o vírus foi deflagrado contra os sistemas de gestão, e não de produção. Bruce Riedel, do Brookings Institute, em Washington, acha que todos esses ataques, juntamente com o drone lançado sobre Israel, são sinais de aviso dos iranianos de que eles podem retaliar e causar muitos danos aos sistemas de produção de petróleo e gás natural da Arábia Saudita e do Qatar, e das instalações nucleares israelenses, se eles foram atacados.

Ele nota, porém, que a capacidade real dos iranianos em causar danos nunca foi testada até agora, mas enfatiza que não podemos subestimar o poder deles. A lição que eu vejo nesses ataques cibernéticos é que todo sistema de informática está vulnerável a um ataque assim, especialmente quando o vírus pode ser introduzido no sistema com um simples pen drive. Não basta desligar redes de computadores da internet para pensar que eles estão salvos de viroses.

A outra lição que devemos guardar disso tudo é que, já que se usou armas cibernéticas contra o Irã, os EUA e seus aliados no Golfo devem esperar que os mesmos meios sejam e devam ser usados contra eles pelos iranianos. É a simples logica de retaliação.