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A luta das mulheres sauditas

A luta das mulheres sauditas

Najla Hariri foi detida tres vezes por dirigir seu carro nas ruas de Jeddah na Arabia Saudita.

Essa coluna foi publicada no O Globo de 20/04/20012

Rasheed Abou-Alsamh

Os ventos de mudança vinham soprando na Arábia Saudita bem antes dos levantes da Primavera Árabe, e eu estou vendo isso principalmente nas ruas e lojas de Jeddah. No ano passado um punhado de mulheres, ao volante de carros, dirigiu pelas ruas de várias cidades desse reino conservador e machista. Elas se filmaram fazendo isto, e postaram os vídeos no YouTube para o mundo inteiro ver, mas principalmente para que outras mulheres sauditas pudessem ver que, sim, mulheres podem dirigir um carro, e nem por isso o mundo acaba.

Eu fui à casa de uma dessas mulheres em Jeddah. Najla Hariri, de 48 anos, mãe de três filhos, morou 25 anos fora da Arábia Saudita. Ela me disse que conseguiu duas carteiras de habilitação — primeiro em Beirute, no Líbano, e depois no Cairo, Egito. De volta ao reino há dois anos e meio, várias vezes viu-se na contingência de tomar o volante para pegar o filho na escola, ou para comprar comida e remédios no mercado. “Nós temos um motorista, mas às vezes ele ou meu marido estavam ocupados com outras coisas, e eu me vi precisando dirigir meu carro para fazer minhas tarefas”, contou Hariri.

Ela calcula que dirigiu pelo menos 20 vezes no ano passado, e que todos que a viam atrás do volante lhe deram sinais de apoio, sorrindo e buzinando. Mas a polícia saudita, não acostumada a ver mulheres dirigindo, incomodou: “Fui parada três vezes pela policia. Nas duas primeiras vezes, eles me liberaram, até me disseram que apoiavam o que eu estava fazendo e que queriam que suas mulheres e irmãs também dirigissem no futuro.”

“Mas na terceira vez”, relatou Hariri, “meu carro foi cercado por três viaturas de policia, e o sargento insistiu que eu fosse para a delegacia com eles.” O marido dela foi chamado à delegacia, e ela, liberada. Um mês e meio depois, ambos foram intimados por um promotor de Justiça e pressionados a assinar declarações juramentadas de que não repetiriam a suposta infração. “Eu assinei porque não queria problemas para minha família”, ela me disse. Não há nenhuma lei saudita que proíba mulheres de dirigir. Tampouco há no Alcorão Sagrado algum trecho sobre isso. “Essa proibição de mulheres dirigir é baseada na tradição saudita e nada mais”, explicou.

Sem poder dirigir, por enquanto, Hariri diz que agora está focando seus esforços, juntamente com um grupo de mulheres de todo o país — ligadas pelo Twitter e pelo Facebook —, na questão da tutela masculina à qual toda mulher no reino é submetida. “Para mim essa é a questão fundamental para nossa independência e liberdade como mulheres”, disse Maha Akeel, jornalista e escritora. “Para fazer qualquer coisa, desde abrir uma conta bancária, viajar ao exterior, se submeter a certo tipos de operações médicas ou mesmo trabalhar, uma mulher saudita precisa da aprovação por escrito de seu responsável masculino”, explicou Akeel.

Em termos práticos, isso quer dizer que mulheres precisam ter permissão prévia do pai para casar, trabalhar e viajar, entre outras coisas. Quando casam, precisam da permissão do marido para fazer tudo isso. Se ficar viúva ou nunca casar, a mulher passa a ser refém de um irmão ou um tio — se não tiver irmãos.

Enquanto as mulheres enfrentamos desafios de viver numa sociedade ultramachista que as infantiliza, as universidades sauditas têm produzido um fluxo constante de diplomadas, mas com escassa esperança de ter emprego.

Isso gerou uma pressão social enorme para achar empregos para essas mulheres, e o governo, finalmente, está respondendo à situação, deixando- as trabalharem em lojas como vendedoras.

Fui abordado por uma vendedora saudita numa loja de perfumes. Não existia isso por aqui dois anos atrás. O governo só permitia homens trabalhando como vendedores — até mesmo em lojas de lingerie para mulheres. O constrangimento que elas enfrentavam ao ter que dar suas medidas para vendedores masculinos de sutiãs e calcinhas levou uma mulher a lançar, anos atrás, uma campanha na internet pela proibição de vendedores masculinos em lojas de lingerie. Agora, até em supermercados a maioria dos caixas está ocupada por mulheres, geralmente cobertas de cabeça aos pés pela vestimenta preta chamada de “abaya”, com somente uma abertura para os olhos.

São sinais favoráveis para a sociedade saudita, mas ainda resta muito a fazer. Se fizer, o país estará num caminho de justiça e liberdade para todos, independentemente do sexo.