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A primavera não morreu

A primavera não morreu

Rebeldes no Mali do grupo islamico Ansar al-Dine. (Courtesia Reuters)

Rebeldes no Mali do grupo islamico Ansar al-Dine. (Courtesia Reuters)

Até um clérigo saudita criticou a atuação dos rebeldes no Mali, mostrando que não há nada de islâmico na matança, estupro e roubo

RASHEED ABOUALSAMH

Pessimistas de plantão começaram a anunciar a morte da primavera árabe, e a chegada de um inverno pouco auspicioso à reforma democrática desencadeada pelas revoluções da primavera. Motivos: o assassinato do líder politico secular tunisiano Chokri Belaid no dia 6 de fevereiro em Túnis; a detenção de reféns num complexo de gás na Argélia por terroristas ligados à al-Qaeda do Maghreb no final de janeiro que deixou pelo menos 23 reféns e 32 terroristas mortos; uma agitação e violência que não para no Egito; e uma guerra civil na Síria que segue matando de 50 a 80 pessoas por dia.

A morte da primavera árabe esta sendo anunciada prematuramente. A tomada de reféns na Argélia foi um efeito da liberação da Líbia, que libertou muitas armas pesadas dos estoques do ditador deposto Muammar Kaddafi, e também em reação à intervenção francesa no Mali contra os militantes islâmicos que controlavam quase metade do país. É verdade que a Líbia continua um pouco instável, e que a segurança é precária em Benghazi, mas isso não quer dizer que a derrubada de Kaddafi fracassou. Ao contrario, os líbios pela primeira vez desde 1969 estão vivendo em uma liberdade como nunca visto antes, e já tiveram eleições livres para escolher um parlamento. É claro que ainda há muito chão a rodar até chegar a uma sociedade mais evoluída e estável, mas isso pode levar uma geração. Kaddafi não deixou instituições públicas se desenvolverem, nem uma sociedade civil robusta, por causa do culto de sua personalidade, então é irrealista e injusto esperar que tudo dê certo da noite para o dia.

O reino de terror de oito meses dos militantes islâmicos no Norte do Mali foi uma grande desfeita ao Islã. Tuaregues, anteriormente empregados pelo regime de Kaddafi, se juntaram aos militantes islâmicos e deflagraram um reino de terror, estuprando mulheres, roubando o que queriam e matando qualquer pessoa que resistia a eles. Por sua vez, os militantes proibiram a venda e consumo de álcool, a reprodução de música e forçaram as mulheres a usar o véu islâmico da cabeça aos pés. Até um clérigo saudita criticou a atuação dos rebeldes no Mali, apontando que não há nada de islâmico na matança, estupro e roubo dos militantes. Em Timbuktu, o antigo centro de estudos islâmicos e de música, vários santuários religiosos dedicados aos santos sufis foram destruídos pelos militantes que acreditam ser proibida no Islã a veneração de pessoas santas.

É um pouco lamentável que o antigo poder colonial do Mali, a França, teve que intervir militarmente no país, mas o governo local estava fraco demais para parar o avanço dos rebeldes para a capital, Bamako, e os outros países africanos lentos e hesitantes demais em mandar tropas para o Mali. Esse episódio nos mostra que os extremistas islâmicos estão se aproveitando do caos pós-revolucionário da região, e que não podemos deixar brechas para eles tomarem vantagem.

No Egito, o governo da Irmandade Muçulmana, liderado pelo presidente Mohamed Mursi, vai de uma encrenca para outra, sem um avanço nas relações com a oposição, e nem sinal de um acordo próximo. Criticas ocidentais de que o governo nem pode entrar em um acordo com o FMI para aceitar um empréstimo de US$ 4,1 bilhões para ajudar a economia egípcia, que está em crise, são erradas. O FMI quer que o governo corte subsídios de alimentos básicos e da gasolina, duas coisas que iam acabar em mais protestos violentos nas ruas das maiores cidades. Neste momento delicado, o Egito não pode aceitar exigências neoliberais, que no papel fazem sentido, mas que na prática são a assinatura de morte de qualquer governo egípcio que tente implementá-las. Somente as eleições parlamentares, que estão para acontecer no dia 25 deste mês, e alterações à nova Constituição — para acatar as críticas da oposição — vão ajudar muito a acalmar a situação política no país, e deixar o público com uma esperança de um futuro melhor.

Finalmente, os críticos da guerra civil na Síria, que argumentam que o governo ferozmente secular de Bashar al-Assad é infinitamente melhor do que qualquer outro possível governo islamista, estão enganados. Eu não acho que os rebeldes ligados à al-Qaeda iam dominar o novo governo que nasceria se Assad fosse deposto. Isso é uma tática de intimidação da parte de esquerdistas anti-imperialistas e minorias religiosas, como os alauitas e os cristãos, que falam que seriam massacrados sem a proteção do regime Assad. O povo sírio merece muito mais do que a ditadura sangrenta da família Assad — que desde 1971, quando o pai de Bashar, Hafez, tomou o poder e começou a construção de um estado policial e repressivo, vem prendendo opositores do governo, torturando e matando.

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Parece que o clamor do público contra a decisão de libertar o xeque Fayan al-Ghamdi, sobre o qual eu escrevi na minha última coluna, teve um efeito. O “Times” informa que a família real saudita interveio na decisão judicial e pediu uma punição mais severa. Isso é uma boa notícia, mas é triste que as autoridades tivessem que fazer isso. Se a Arábia Saudita possuísse um código de leis, não seria necessário esse tipo de intervenção.

Rasheed Aboualsamh é jornalista

URL: http://glo.bo/13seebQ