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A violação da censura

A violação da censura

O grupo iLuminate de Nova York se apresentou em Riyadh e Jeddah em outubro 2016.

Esta coluna foi publicada no O Globo de 20/01/2017:

‘Cinemas podem exibir filmes libertinos, obscenos, imorais e ateístas’, afirmou o mufti saudita

Por Rasheed Abou-Alsamh

O eterno debate sobre ter ou não ter cinemas na Arábia Saudita ressurgiu semana passada, quando o grão-mufti xeque Abdulaziz Al al-Sheikh, a mais alta autoridade religiosa do país, decretou que a proibição de haver salas de projeção e concertos de música pop não vai ser revogada porque participar de tais eventos corromperia a moralidade pública e encorajaria a mistura de homens e mulheres.

A declaração do mufti vem depois que o vice-príncipe herdeiro saudita, Mohammad bin Salman, lançou ano passado um projeto chamado Vision 2030 para reformar a economia, diversificando as fontes de renda além das exportações de petróleo. Com estas reformas, veio um programa para melhorar a vida social dos sauditas com a implementação de mais opções de lazer, cultura e entretenimento. O objetivo é fazer a vida menos entediante para a população, que tem poucas opções nessa área.

O governo saudita já começou negociações com o grupo americano Six Flags para construir um parque de diversão perto da capital, Riad. E o príncipe Mohammad ordenou a criação de um órgão público saudita de entretenimento. Esse órgão já trouxe vários comediantes e artistas estrangeiros para fazer shows no reino. Nesses eventos, homens e mulheres se misturam livremente, uma novidade nesse país onde os gêneros são sempre separados em lugares públicos. Mas alguns eventos tiveram que ser cancelados de última hora por causa de oposição de pessoas ultraconservadoras.

Mas o próximo passo lógico, de reabrir cinemas, fechados desde os anos 1980, produziu uma reação forte e negativa da ala religiosa e conservadora, liderada pelo mufti. “Cinemas podem exibir filmes libertinos, obscenos, imorais e ateístas, porque eles vão usar filmes importados para mudar a nossa cultura,” disse o mufti.

Mas foi exatamente esse mesmo argumento que o governo saudita enfrentou em 1965, quando introduziu uma emissora estatal de TV no país. A primeira transmissão foi de uma recitação do Alcorão, para apaziguar os conservadores e mostrar que a TV podia ser usada para o bem e a educação. Mas isso não foi o suficiente para convencer os ultraconservadores, que acham imoral a transmissão de imagens de seres humanos. Em setembro de 1965, um sobrinho do rei Faisal ibn Abdul Aziz, o príncipe Khalid ibn Musaid ibn Abdul Aziz, foi morto depois que liderou um ataque a uma estação de TV. O rei Faisal também é lembrado por ter introduzido a educação pública para meninas em 1960. Em 1975, Faisal foi assassinado por outro sobrinho, o príncipe Faisal ibn Musaid, irmão de Khalid.

Nos anos 1970 e no início dos anos 1980, havia vários cinemas na cidade de Jedá, a capital comercial do país e a mais liberal também. Na mesma época, havia apresentadoras sauditas na TV estatal. Mas a tentativa violenta de tomar o Kaaba (cubo preto no centro da Mesquita Sagrada) em Meca por um grupo de extremistas religiosos em 1979 e a Revolução Islâmica, no Irã, forçaram a família real saudita a fazer um pacto com os ultraconservadores para ter o seu apoio. Alguns dos seus pedidos foram a retirada das apresentadoras da TV estatal, o fechamento de cinemas e a estrita separação dos gêneros em áreas publicas.

Eu acho um erro proibir cinemas no reino. Todo fim de semana há uma fila enorme de sauditas dirigindo seus carros para o Bahrein pela ponte que liga aquele país ao leste da Arábia Saudita. Eles vão para Manama para ver os últimos blockbusters americanos no cinema, beber e se divertir. Ainda me lembro bem da censura aqui no Brasil durante a ditadura militar, quando as emissoras tinham que submeter todos os seus programas à aprovação do Departamento de Censura da Polícia Federal. “Este programa foi liberado para maiores de 14 anos,” dizia a voz na TV enquanto mostrava o certificado de liberação na tela.

No Brasil, felizmente, deixamos estes dias escuros para trás faz décadas. Mas na Arábia Saudita, apesar de o Islã ser uma religião que prega que somente Deus pode nos julgar por nosso comportamento e pelos erros que cometemos, a ala conservadora insiste em querer mandar no que acha melhor para o país e os sauditas.

A censura é uma coisa nefasta, que corrói a liberdade de expressão e a confiança do público nos seus governantes. Lembro que quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait no dia 2 de agosto de 1990, e eu trabalhava num jornal em Jedá, nós fomos proibidos pelo governo de publicar a notícia por três dias! Imagine só. Naquela época não havia internet, e governos podiam controlar muito melhor o fluxo das notícias. Mas, mesmo naquela época, era uma tentativa em vão, já que quase todo mundo tinha acesso à CNN via satélite e a rádios como a BBC de Londres e já sabia da invasão.

Mais de metade da população saudita tem menos de 30 anos. E, com estudos no Ocidente, viagens frequentes e a internet, já está acostumada a certas liberdades de expressão. Querer sufocar isso como os ultraconservadores querem fazer é um exercício de futilidade e somente vai gerar mal-estar e ressentimento.

Como disse o grande político brasileiro Ulysses Guimarães, “a censura é a inimiga feroz da verdade. É o horror à inteligência, à pesquisa, ao debate, ao dialogo. Decreta a revogação do dogma da falibilidade humana e proclama os proprietários da verdade.”

Rasheed Abou-Alsamh é jornalista

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