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As sauditas vão poder votar antes de dirigir: O Globo

Esse artigo foi publicado no O Globo de 16 de dezembro, 2011. Clique aqui para ver um PDF da pagina: PDF 16 12 2011

RASHEED ABOU-ALSAMH

A controvérsia de deixar ou não mulheres sauditas dirigir carros regularmente resurge na consciência nacional na Arábia Saudita, que tem a infelicidade de ser o único pais no mundo que ainda proíbe mulheres de dirigir.

A mais recente manifestação foi um suposto estudo feito por um acadêmico aposentado, Kamal al-Subhi, que conclui que deixar mulheres sauditas dirigir ia levar elas para a prostituição, ia acabar com a virgindade no pais e levar todos para a homossexualidade.

É claro que a melhor forma de lhe dar com acusações tão delirantes seria ignorá-las, mas o problema é que ele entregou o estudo para um grupo de intelectuais, e um deles levou o estudo para o conselho do Shoura, uma assembléia de 150 notáveis que dão conselhos para os governantes do reino.  De la, alguém vazou as informações que foram postados na internet.

É importante frisar aqui que não ha absolutamente nada no Islã que proíbe mulheres de dirigir. Na Arábia Saudita essa proibição surgiu dos costumes locais ultra-tradicionais de segregar homens das mulheres em ambientes públicos, e da interpretação wahabita da religião que deixa a mulher em desvantagem com o homem em quase todos os aspectos da vida. Seguindo essa linha de pensamento ultraconservador, muitos homens sauditas veem a questão de deixar ou não mulheres dirigir, como uma forma de controle social, da qual eles não querem e nem pretendem abrir mão de jeito nenhum.

Com a proibição de dirigir, mulheres na Arábia Saudita são reféns de caronas dadas por seus pais, irmãos ou maridos, ou de motoristas particulares se elas tem o poder econômico de contratá-los. O problema aqui é que 43% das mulheres jovens sauditas estão desempregadas, e as que trabalham como professoras, por exemplo, ganham tão mal que muitas vezes tem que gastar metade ou mais do salário mensal somente para pagar o salário de um motorista.

Por isso, é muito comum ver a noite em qualquer cidade grande saudita filas de motoristas particulares, vindo da Indonésia e outros países, esperando do lado de fora de shoppings enquanto suas patroas vão as compras. Muitas mulheres já notaram o obvio aqui: Que é muito mais perigoso elas ser dirigidas por homens estranhos do que elas dirigir por si mesmas, mais essa observação tem tido quase nenhum efeito no pensamento do publico em geral.

Eu percebi quanto uma grande parte do publico saudita esta contra deixar mulheres dirigir pela primeira vez em 2005 quando eu fui para a capital Riad para cobrir as primeiras eleições municipais no pais desde 1963. Passei algumas horas com um candidato liberal que fazia campanha eleitoral dizendo que queria deixar mulheres dirigir para acabar com os milhões de motoristas estrangeiros no pais. Enquanto ele me dirigia no carro dele pelas ruas da capital, o celular dele não parava de tocar e eu ouvia as vozes escandalizadas de homens sauditas gritando com raiva que ele ia levar o pais para o inferno se deixasse mulheres dirigir. Obviamente, perdeu a eleição.

Os ventos de mudança da Primavera Árabe desse ano também chegaram na Arábia Saudita, especialmente no debate de deixar ou não mulheres dirigir. Pela primeira vez esse ano, várias mulheres em cidades diferentes do pais, que já tinham carteiras de habilitação de outros países, decidiram tomar o volante e se filmar fazendo isso. Os vídeos foram postados no YouTube. Elas relataram reações variadas nas estradas, de apoio e sorrisos ate homens que notaram as placas dos carros delas e depois ligaram para a policia para dar queixa.

Algumas das motoristas foram paradas pela policia e levadas para delegacias aonde foram pressionadas a assinar papeis onde prometiam não repetir a mesma ofensa. Uma dessas motoristas, a Shaima Jastaniah, não foi tão afortunada e viu o seu caso parar com um juiz em Jeddah. O juiz não viu o protesto dela com bom olhos e sentenciou-a a dez chibatadas, em vez de só aplicar multa, que seria a punição habitual. A Jastaniah apelou e, se perder, só vai escapar das chibatadas se o rei Abdullah lhe conceder clemência.

A sentença do juiz veio um dia depois do rei Abdullah anunciar no dia 25 de setembro que iria deixar mulheres se candidatar e votar nas eleições municipais em 2015. Vários comentaristas notaram que a sentença tão severa do juiz poderia ser uma reação ao pronunciamento real, já que o judiciário é povoado por juízes super-conservadores que  nunca iriam aceitar esses avanços para mulheres.

O rei Abdullah e vários outros membros da família real dos Al-Sauds já disseram publicamente que apóiam o direito de mulheres dirigir, mas notaram que não podiam forçar o publico a aceitar tal coisa. Isso é a situação clássica onde o governo esta a frente da opinião publica, um pouco como aqui no Brasil onde o poder executivo e o Supremo Tribunal Federal estão a frente da opinião publica e mesmo do Congresso Nacional na questão do casamento gay.

É irônico e triste que mulheres na Arábia Saudita vão, provavelmente, poder votar antes de ter o direito de dirigir. E tudo isso em nome de uma tradição antiga que tem nada a ver com o Islã, e que trata mulheres como seres incapazes de tomar decisões. E como se sabe,  elas são muito capáveis de tomar o rumo das suas vidas, muitas vezes de um jeito bem melhor do que os homens.

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