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Crise no Qatar: Jogo duplo e dois lados inflexíveis

Crise no Qatar: Jogo duplo e dois lados inflexíveis

Prateleiras de leite vindo da Turquia num supermercado de Doha. Antes, boa parte do leite vinha da Arabia Saudita, que cortou relações diplomáticas com Qatar no dia 5 de junho.

Essa análise foi publicada no O Globo de 11/06/2016:

Por Rasheed Abou-Alsamh

A grave crise diplomática entre o Qatar e Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Egito está se aprofundando com o ministro de Relações Exteriores do Qatar insistindo que seu país não modificará sua política externa e tampouco fechará a emissora Al Jazeera. O governo qatari tem tentado acalmar sua população, que correu na segunda-feira aos supermercados para estocar comida e água.

Tensões entre Qatar e seus vizinhos no Golfo não são novas. Em 2014, Arábia Saudita, Emirados, Bahrein e Kuwait chamaram seus embaixadores em Doha de volta e suspenderam relações diplomáticas. Furiosos, estes países exigiram do Qatar interromper o que consideram jogo duplo: apoiar grupos vistos como extremistas, como a Irmandade Muçulmana e o Hamas, e, ao mesmo tempo, hospedar tropas americanas numa base militar no seu solo. Depois de algumas semanas, os qataris disseram que mudariam seu comportamento, e as relações voltaram ao normal.

Mas esse é o problema do Qatar, não cumprir promessas. Líderes da Irmandade Muçulmana, como o egípcio Youssef al-Qaradawi, permanecem em Doha. O grupo palestino Hamas recebe US$ 20 milhões por mês, como pagamento de salários de seus funcionários em Gaza. Sauditas, emiratis e egípcios apoiam a Autoridade Nacional Palestina liderada por Mahmoud Abbas e consideram que o apoio qatari ao Hamas serve para dividir os palestinos.

Mas o último ato de desafio de Doha que desencadeou esta crise, segundo o diário “Financial Times”, foi o pagamento em abril de US$ 1 bilhão a uma milícia pró-iraniana no Iraque para a libertação de vários xeques qataris que foram sequestrados em 2015, enquanto caçavam naquele país.

As demandas dos países do Golfo são bem claras: fechar a emissora Al Jazeera, que sempre deu pesadelos para as monarquias absolutas com suas críticas pontuadas; suspender o apoio financeiro e político à Irmandade e ao Hamas; e parar de flertar com o Irã, arqui-inimigo da Arábia Saudita e dos EAU.

A diferença entre a crise de 2014 e a de agora é que o presidente americano é Donald Trump e não Barack Obama. Obama mantinha os Estados do Golfo à distância e foi responsável pelo acordo nuclear com o Irã, enfurecendo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Mas Trump é republicano, admirado pelos monarcas do Golfo, e também vê o Irã como um centro de apoio ao terrorismo.

Já há murmúrios de uma mudança de regime no Qatar. A CNN em Árabe informou, no último dia 7, que, segundo uma fonte militar americana, as forças militares do país estavam em alerta máximo, temendo uma invasão saudita por terra.

O presidente Trump vem apoiando a ação diplomática da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos e chegou a tuitar, depois do anúncio do rompimento das relações com o Qatar: “Durante minha viagem recente ao Oriente Médio, eu disse que não podia haver mais o financiamento de ideologia radical. Líderes apontaram para o Qatar — vejam!”

Após os ataques terroristas em Teerã na terça-feira, ele lamentou a violência, mas disse que os EUA sublinham que Estados que apoiam o terrorismo se arriscam a ser vítimas da maldade que promovem. Com todas essas ações, está muito claro que Trump parou de dar apoio ao emir Tamim bin Hamad al-Thani. O Qatar se encontra num beco sem saída, e não pode aceitar ajuda do Irã ou da Turquia.

Tudo indica que esta crise ainda vai durar um bom tempo. Os dois lados estão inflexíveis em suas posições, o que não ajuda a manter a estabilidade da região. Temos que esperar a ação dos EUA para evitar que um conflito maior exploda na região.

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