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Hesitação e má-fé assombram a Síria

Hesitação e má-fé assombram a Síria

O chanceler sírio Walid Moallem em Montreux, Suíça, no dia 22 de janeiro, 2014. (foto AP)

Essa coluna foi publicada no O Globo de 24/01/2014:

Rasheed Abou-Alsamh

O primeiro dia das negociações de paz chamadas de Genebra 2, na cidade suíça de Montreux, expõe o tremendo vão entre o regime sírio de Bashar al-Assad, a oposição e os poderes ocidentais. Estes últimos querem ver a saída de Assad do poder o quanto antes para haver progresso na caminhada para uma paz na guerra civil que já viu mais de cem mil sírios mortos e mais de dois milhões deles deslocados.

Infelizmente, vimos o chanceler sírio Walid al-Mouallem insistir no seu discurso de abertura que a guerra civil na Síria é culpa de terroristas, especialmente aqueles apoiados por petrodólares, uma clara alusão à Arábia Saudita e ao Qatar por seu apoio a grupos rebeldes. Essa ladainha foi repetida no fim do dia pelo embaixador sírio na ONU, Bashar Jaafari, que se queixou que a maioria das 40 delegações participando das negociações era contra o governo de Damasco. Isso mostra que o regime de Assad, apoiado pela Rússia, não está disposto a deixar o poder mesmo que às custas da morte mais milhares de sírios.

E não é somente a má-fé do regime de Assad ao não querer deixar o poder de jeito algum, custe o que custar em vidas e sangue, mas o fato de que esse regime é maquiavélico. O jornal britânico “Daily Telegraph” publicou uma investigação esta semana que aponta que o regime de Assad tem cooperado com grupos extremistas ligados à al-Qaeda que controlam áreas no país produtoras de petróleo. O regime tem deixado esses grupos vender petróleo usando oleodutos que passem por áreas controladas pelo governo. O jornal também acusou o regime de ter libertado prisioneiros militantes para poder acusar a oposição de ser extremista e terrorista.

O “Telegraph” aponta que o regime de Assad começou a cooperar com os extremistas na primavera de 2013, quando o grupo Jabhat al-Nusrat tomou controle de campos de petróleo na província oriental de Deir al-Zour. De lá pra cá, o grupo tem financiado suas operações na Síria com milhões de dólares em renda da venda do petróleo. “O regime esta pagando a al-Nusrat para proteger oleodutos de petróleo e gás sob seu controle no norte e leste do país, e está permitindo o transporte de petróleo para áreas sob o comando do regime”, disse uma fonte de inteligência ocidental ao jornal.

É claro que o regime Assad não é o melhor amigo dos rebeldes extremistas, mas é uma relação oportunista dos dois lados. Uma relação que tem deixado crescer a al-Qaeda no país. O outro culpado pelo crescimento dos grupos extremistas na Síria é o presidente americano Barack Obama, que, após recuar da beira do ataque militar contra a Síria — depois que a Rússia convenceu Assad a entregar todas suas armas químicas —, parou de exercer o poder americano para forçar os dois lados à mesa de negociações. Infelizmente, na excitação de talvez alcançar um acordo nuclear com o Irã, americanos ignoraram a interferência iraniana na Síria, onde eles já treinaram 20 mil sírios para lutar com grupos de milicianos pró-Assad.

A maldade do regime de Assad, aparentemente, não tem limites, como mostrou outro relatório, este supervisionado pelo governo do Qatar, que apontou esta semana que o regime tinha torturado e matado 11 mil presos em centros de detenção, e que o governo tentou disfarçar isto alegando que eles tinham morrido de outras causas.

Em Montreux, a delegação do governo sírio somente vai ficar cara a cara com a oposição síria hoje. Eles vão ficar isolados numa sala, com os americanos, britânicos e franceses em outras salas próximas. Um ponto muito importante a ser discutido será a possibilidade de abertura de corredores de ajuda humanitária para as áreas mais atingidas. Até agora, o regime sírio tem resistido à proposta, mas a ONU deveria insistir nisso e ameaçar usar o Conselho de Segurança contra a Síria se o governo sírio tentar impedir acesso humanitário.

Mouallem insiste que a guerra civil somente pode ser resolvida pelos sírios e ninguém mais. Mas a realidade é que ambos os lados têm seus apoiadores estrangeiros. Se Assad realmente amasse seu país, e não o poder e o dinheiro que ele comanda atualmente, ele botaria sua presidência na linha e, se forçado, ia sacrificar seus interesses particulares para o bem do povo sírio. Mas não, ele não tem o bem-estar do povo sírio na sua mente. Recentemente um assessor dele disse que ele estava pensando em se candidatar para as eleições no fim deste ano, quando seu mandato termina. Isso somente pode ser uma piada de muito mau gosto. Toda a oposição síria está inflexível em insistir que a renúncia de Assad é primordial para o fim da guerra civil. O resultado das negociações de Genebra 1 foi que o próximo passo seria a negociação da saída de Assad e seu regime do poder. O apoio que a Rússia dá a Assad deixa a matança continuar e o sangue dos sírios ser derramado desnecessariamente.

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