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Mudança de direção no Iêmen?

Mudança de direção no Iêmen?

Peritos forenses inspecionam o que resta do prédio que foi bombardeado no dia 8 de outubro durante um funeral em Sanaa. (foto Reuters)

Essa coluna foi publicada no O Globo no dia 14/10/2016:

Por Rasheed Abou-Alsamh

Os sauditas, certamente, têm o direito e o dever de se defender de ataques contra o país

O ataque a uma cerimônia fúnebre em Sanaa, no Iêmen, no dia 8, pegou todo mundo de surpresa. O país está, desde 2014, mergulhado em uma guerra civil que já matou mais de 6.700 pessoas. Mesmo assim, iemenitas pensavam que funerais eram ocasiões em que inimigos podiam se cruzar em paz, sem violência alguma.

Só que, desta vez, a violência veio do céu. Jatos militares da coalizão liderada pela Arábia Saudita — que está lutando contra os rebeldes houthis para levar de volta ao poder o presidente Abd Rabbuh Mansur al-Hadi — lançaram bombas no grande salão de eventos onde estava sendo realizada a cerimônia fúnebre do pai do atual ministro rebelde do Interior, Jalal al-Rowaishan. O espaço estava lotado de notáveis de todo o país, que vieram dar seus pêsames. O ataque matou 140 pessoas e feriu mais de 500. Entre os mortos estavam o prefeito de Sanaa, Abdel Qader Hilal; o ex-governador da província de Al-Bayda, Muhammad Nasser al-Ameri; e o ex-vice-ministro das Finanças Dr. Abdullah Ghaleb al-Mekhlafi. Uma lista com mais nomes dos mortos publicada por uma fonte saudita informa que 19 generais e 14 coronéis do Exército iemenita também morreram.

Nas primeiras horas depois do ataque, a Arábia Saudita negou que tivesse bombardeado o funeral, mas depois declarou que ia começar uma investigação e pediu a colaboração dos Estados Unidos. O ex-presidente Ali Abdullah Saleh, por décadas um aliado importante dos sauditas, mas que agora apoia os houthis, chamou os rebeldes para lançaram mais ataques contra o reino na fronteira extensa dos dois países. E foi isso o que aconteceu, com o lançamento no dia 9 de vários mísseis Scud contra a Arábia Saudita e um navio de guerra dos EUA no Mar Vermelho. Os mísseis lançados contra os americanos caíram na água e não causaram dano algum. Um outro míssil foi interceptado pelos sauditas, mas os fragmentos do míssil caíram na região da cidade de Taif, que fica a apenas 40 quilômetros da cidade mais sagrada dos muçulmanos, Meca. Isso deflagrou uma onda de comentários no Twitter denunciando esse ataque, com as hashtags #HouthisAtacamMeca e #TaifEstaBem. No dia 11 de outubro, os sauditas interceptaram mais dois mísseis lançados contra o reino pelos houthis.

Os Estados Unidos reagiram aos ataques aos seus navios lançando mísseis na manhã de 13 de outubro contra os três radares usados pelos houthis para guiar seus equipamentos. As instalações foram completamente destruídas, e ficou em aberto a pergunta se isso sinaliza uma escalada do envolvimento americano na guerra. Alguns analistas disseram que talvez fosse a preparação para uma pequena invasão americana a fim de assegurar a costa leste do Iêmen para as forças de Hadi.

Dias antes, os americanos reagiram com consternação ao ataque de sábado: um porta-voz do governo americano disse que o apoio dos EUA à ofensiva da coalizão liderada pelos sauditas no Iêmen não era um cheque em branco. Os americanos já tinham diminuído o número de oficiais que ajudavam os sauditas no centro de controle dessa guerra, em Riad. Mesmo assim, o abastecimento aéreo de jatos sauditas pelos americanos é essencial para a campanha do reino no Iêmen — e não foi interrompido até agora. E algumas semanas atrás o Congresso americano aprovou a venda de mais de US$ 1 bilhão em novo equipamento militar aos sauditas, incluindo tanques de guerra.

“Eu não acho que os EUA queiram ficar mais envolvidos no Iêmen,” disse-me numa entrevista Elana DeLozier, uma especialista nos países do Golfo que mora em Beirute. “Os EUA já tinham retirado seus especialistas em alvejamento este verão. Eles, silenciosamente, tiraram todo o seu pessoal, exceto por quatro pessoas, da Arábia Saudita. Ironicamente, pode ser por causa dessa falta de assistência americana que esse ataque no sábado tenha ocorrido. Eu acho que isso vai encorajar os americanos a tentar parar a guerra”, explicou ela.

Iniciativas para chegar a um cessar-fogo no Iêmen não faltam. De junho a agosto deste ano, a ONU patrocinou no Kuwait negociações de paz entre as facções iemenitas. Não deu em nada, principalmente porque os houthis não aceitaram as exigências de Hadi de que eles deixassem a capital Sanaa e entregassem todas as suas armas. Logo depois do fim dessas negociações, os houthis anunciaram a formação de um órgão governante com dez membros, mas sem a participação das forças pró-Hadi.

Os sauditas veem a guerra civil no Iêmen com alarme e como uma ameaça à segurança nacional. Os constantes ataques dos houthis na fronteira saudita, alvejando grande cidades sauditas no Sul como Jizan e Khamis Mashayt, servem para alimentar uma onda nacionalista entre a população do reino, que nunca antes foi alvo de tantos ataques de um país vizinho. E eles também acreditam que seu grande rival regional, o Irã, está apoiando os houthis com armas para tentar conseguir um ponto de apoio na fronteira com a Arábia Saudita.

Os sauditas certamente têm o direito e o dever de se defender de ataques contra o país. Mas os constantes bombardeios do Iêmen não têm surtido qualquer efeito no sentido de levar Hadi de volta ao poder. Os houthis e seus aliados controlam o norte do país, e as forças de Hadi controlam Áden e parte da costa sul do país. Os sauditas não tentaram uma invasão por terra para retomar a capital Sanaa até agora por causa do terreno hostil e do grande número de mortos que haveria.

É lamentável que tantos tenham morrido em Sanaa no sábado passado. Muitos mortos eram chefes tribais de áreas no norte do país que estavam abertos a negociar um cessar-fogo com o grupo de Hadi. Com os ânimos acirrados, parece que a chance de haver uma trégua está mais longe do que nunca. O país e povo do Iêmen, que são tão generosos e lindos, não merecem tanta matança e sofrimento.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/mudanca-de-direcao-no-iemen-20286728#ixzz4NO4O6sIt