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Não podemos achar normal o massacre em Gaza

Um palestino ferido no dia 14 de maio, 2018, nos protestos em Gaza perto do muro com Israel, é carregado por outros palestinos. (Foto AP)

Por Rasheed Abou-Alsamh

25/05/2018 O Globo

Em Gaza, os palestinos só têm quatro horas diárias de energia elétrica, e até 97% da água encanada não são potáveis

Ainda estou em choque com o nível brutal da violência empregada por Israel contra manifestantes palestinos na Faixa de Gaza semana passada. Num único dia, 55 palestinos foram mortos e mais de dois mil feridos, todos atingidos por balas israelenses disparadas por militares aparentemente cumprindo ordens para causar o máximo de estrago.

O protesto semanal dos palestinos residentes na Faixa de Gaza, junto ao muro que a separa do território de Israel, foi adiantado de sexta para segunda-feira, dia 14. O motivo: a saída da embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv, ordenada pelo presidente americano Donald Trump. Sua filha Ivanka Trump e seu genro Jared Kushner estavam presentes para marcar a ocasião com uma festa. No dia seguinte, o jornal americano “Daily News” publicou uma foto de Ivanka sorridente na capa, ao lado de uma imagem de palestinos feridos em Gaza, com a seguinte manchete: “O espírito mau de papai: 55 abatidos em Gaza, mas Ivanka toda sorridente na inauguração da embaixada em Jerusalém.”

O governo israelense foi rápido para justificar este banho de sangue, pondo toda a culpa do movimento político no Hamas, que controla Gaza. No dia seguinte ao massacre, os israelenses disseram que a maioria dos mortos era membro do grupo. E aí eu questiono. O Hamas tem vários braços, incluindo o político e o militar. Recebeu a maioria dos votos em eleições parlamentares em 2006, e tomou o controle de Gaza da Autoridade Palestina em 2007. Matar estas pessoas a bala e ferir gravemente mais de dois mil palestinos — a maioria nas pernas, atingidas por balas dundum, que expandem dentro do corpo e deixam um buraco enorme na vítima — se justifica como? Por que não usaram balas de borracha e canhões d’água? Nenhum dos palestinos foi forçado pelo Hamas a ir protestar na fronteira. Palestinos não são robôs sob o comando de um grupo ou outro.

Este mês, os israelenses estão comemorando os 70 anos do estabelecimento do Estado de Israel, e os palestinos 70 anos de nakba (catástrofe em árabe). Em 1948, mais de 700 mil palestinos foram forçados pelos judeus a deixarem suas casas na Palestina. Até hoje, centenas, talvez milhares, de famílias guardem as chaves de suas residências, que tiveram de abandonar, na esperança de voltar um dia.

O plano — que começou com a ONU em 1947 — de repartir a Palestina em dois Estados, um judeu o outro palestino, já morreu faz tempo. Os assentamentos israelenses na Cisjordânia, considerados ilegais pela maioria do mundo, têm deixado os palestinos sem poder fundar uma nação independente lá e em Gaza. Os israelenses dizem não querer devolver estes assentamentos por razões de segurança. Mas isso inviabiliza um Estado palestino. Como podemos ter um país com pedaços de terra não contíguas? É impossível.

Mas é assim que os extremistas israelenses, como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, querem que fique a situação. Os palestinos sofrendo privações e humilhações diárias debaixo da ocupação e opressão israelenses.

Em Gaza, os palestinos só têm quatro horas diárias de energia elétrica, e até 97% da água encanada não são potáveis. Segundo um estudo feito pelo professor americano Brian Barber, da Universidade do Tennessee, 80% dos palestinos em Gaza já sofreram invasões de suas casas pelas Forças Armadas israelenses; mais de 70% já viram algum parente sendo humilhado; mais de 60% sofreram eles próprios abusos verbais por parte dos israelenses.

Com taxas altíssimas de desemprego em Gaza, e sem poder sair do território, não surpreende que os jovens se sintam encurralados e sem esperança no futuro. Israel gosta de dizer que tirou os últimos assentamentos israelenses de Gaza em 2005 e que, se o Hamas gastasse seu orçamento de forma mais positiva, poderia hoje ser uma mini-Cingapura no Oriente Médio. Mas como, se Israel quase nada deixa entrar no território, e o Egito somente abriu a passagem que tem para a Faixa de Gaza agora durante este mês do Ramadã? Há cerca de 30 mil palestinos na lista de espera para usar a passagem de Rafah para ir ao Egito, muitos deles precisando urgentemente de tratamento médico, que não conseguem em Gaza.

A maioria dos israelenses vive em uma bolha de riqueza e bem-estar, se escondendo atrás de muros, num mundo de apartheid — no qual os palestinos vivem como seres inferiores. O problema do projeto sionista de estabelecer um Estado judeu na Palestina é que já havia uma população vivendo lá quando os judeus imigrantes vindo da Europa chegaram. Essa insistência em manter Israel como um Estado exclusivamente judeu não é nada democrática.

Agora, o governo de Israel diz que não vai cooperar com a investigação do massacre de Gaza feita pela ONU. Os israelenses adoram falar que são os mais democráticos e justos no Oriente Médio. Mas onde está a justiça em manter os palestinos subjugados e sem liberdade por 70 anos? Onde está a justiça de abater manifestantes palestinos, armados somente com pedras?

Está mais do que na hora de repensar o projeto de Israel. Com a Autoridade Palestina tendo reconhecido o Estado de Israel em 1988, e até o Hamas admitindo que Israel não vai desaparecer, onde está a vontade israelense de tirar os palestinos da penúria em que estão? Precisamos há muito tempo de líderes políticos audaciosos dos dois lados para nos tirar deste inferno na Terra.

https://oglobo.globo.com/opiniao/nao-podemos-achar-normal-massacre-em-gaza-22713249