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O centenário do Grande Levante Árabe

O centenário do Grande Levante Árabe

Forças árabes em cima dos seus camelos, prontos para lutar contra os turcos na Arábia.

Essa coluna foi publicada no O Globo de 10/06/2016:

Era típico do Império Britânico enganar os árabes usando o dinheiro, falsas promessas e manipulação

Por Rasheed Abou-Alsamh

Faz cem anos esta semana que o Grande Levante Árabe contra o Império Otomano começou, em 9 de junho de 1916, com o bombardeio britânico da cidade de Jedá por navios militares no Mar Vermelho. A Arábia Saudita não existia ainda, e a região do Hejaz, onde ficam Jedá e as cidades sagradas de Medina e Meca, estava sob o domínio dos turcos.

O Grande Levante Árabe aconteceu dentro do contexto da Primeira Guerra Mundial, na qual os Aliados — formados pelo Reino Unido e o Império Britânico, a França e o Império Russo — lutavam contra a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano. Esse conflito durou quatro anos, de 1914 até 1918, nos quais nove milhões de combatentes e sete milhões de civis perderam a vida. Também acabou com o Império Otomano, que se estendia do Kuwait, no Golfo Pérsico, seguindo pela Mesopotâmia, Síria, Palestina, Transjordânia, e descia à costa oeste da Península Arábica em direção ao Hejaz.

Para facilitar a viagem de peregrinos muçulmanos rumo a Meca, os otomanos começaram a construir uma linha ferroviária, em 1900, que ia de Damasco, na Síria, para Medina, no Hejaz. Nomeada Estrada de Ferro do Hejaz, a obra foi concluída em 1908, chegando somente a Medina, e não a Meca, como queriam os líderes otomanos, por causa dos ataques regulares contra a linha ferroviária por parte de tribos árabes locais. É claro que os otomanos também usaram essa linha com fins militares, para controlar todas as terras árabes sob seu domínio.

Apesar de se chamar Revolta Árabe, esse levante, na verdade, foi todo tramado pelo governo britânico, com a ajuda da França, para acabar com o Império Otomano e passar o controle dos vários territórios árabes aos ingleses e franceses. Um mentor dessa revolta foi o famoso militar e espião inglês T.E. Lawrence, que liderou ataques árabes a guarnições otomanas na região e à Ferrovia do Hejaz. Ele, com Gertrude Bell, outra espiã britânica, foi decisivo para enganar Sherif Hussein, o rei do Hejaz, dizendo que deixaria o próprio Hejaz, a Palestina, a Síria e o Iraque ficarem independentes depois da Primeira Guerra Mundial. O infame Acordo Sykes-Picot, de 1916, tramado em segredo entre a Grã-Bretanha e a França, dividia as áreas do Oriente Médio que ficariam sob o domínio de cada país. À Grã-Bretanha couberam a Palestina, a Transjordânia e o Iraque; enquanto aos franceses, o Líbano e a Síria. Hussein ficou somente com o Hejaz, que ele logo perdeu para Abdulaziz ibn Saud, em 1924. Dois filhos de Hussein, Faisal e Abdullah, conseguiram reinar no Iraque e na Jordânia respectivamente.

Era típico do Império Britânico enganar os árabes usando dinheiro, falsas promessas e manipulação. Mas também foi decisivo para o desmoronamento do Império Otomano e a criação dos países árabes modernos que conhecemos hoje. Com certeza, apesar de os turcos também serem muçulmanos, não eram árabes, os vários povos árabes subjugados a eles não gostavam dos excessos otomanos. Os árabes cristãos no Líbano e na Síria, em particular, se ressentiam muito do domínio turco e da obrigação de todo jovem homem árabe ter que prestar serviço militar no Exército otomano, muitas vezes em lugares muito longe de casa. Por isso, houve grande onda de imigração árabe destes lugares para o Brasil no começo do século XX.

De acordo com o escritor inglês John Johnson Allen, autor do livro “TE Lawrence and the Red Sea Patrol” (“TE Lawrence e a Patrulha do Mar Vermelho”), os ingleses precisavam usar a rota marítima pelo Canal de Suez e o Mar Vermelho para abastecer suas tropas no Egito, Sudão, Iêmen e na Índia, e para levar bens da Índia à Inglaterra. O canal, concebido pelos franceses, foi aberto em 1869, cortando muitas semanas da viagem da Europa à Ásia. Antes, era preciso contornar o continente africano quase que por inteiro. Em 1915, os otomanos fizeram operações com oito a dez mil militares perto do canal. Com isso, os britânicos, ameaçados, se viram na necessidade de estabelecer a segurança da rota para a Índia. Oito navios de guerra, seis britânicos e dois franceses, foram estacionados no canal para fornecer apoio de artilharia à defesa. Os turcos atacaram, mas foram empurrados para trás pela superioridade do fogo inglês.

Mais tarde, em 1916, os ingleses decidiram atacar guarnições otomanas em Jedá, Yanbu e Medina, e deixar essas cidades sob controle de árabes, porém aliados da Coroa britânica. Para as cidades costeiras, eles usaram um punhado de navios militares de médio porte e que podiam carregar hidroaviões usados para voos de reconhecimento e bombardear os turcos. Os turcos em Jedá se renderam, depois de cinco dias de bombardeios britânicos. Nos meses seguintes, os ingleses levaram centenas deles, incluindo mulheres e crianças, como prisioneiros de guerra nos seus navios para Port Said, no Egito.

A cidade de Medina e os turcos sofreram um cerco das forças árabes e inglesas por mais de dois anos, de 1916 até janeiro de 1919. As forças otomanas na cidade tinham a vantagem de estarem no terminal da Ferrovia do Hejaz. Por isso, podiam ser reabastecidos com soldados, munição e comida a partir de Damasco. Mas também era seu ponto fraco, porque Lawrence decidiu fazer uma série constante de ataques à ferrovia, explodindo pontes e destruindo os trilhos.

Não imagino que o centenário do começo do Grande Levante Árabe esteja sendo comemorado em Jedá, o que é uma pena. Seria bom se os jovens sauditas soubessem um pouco mais da história do seu país, e do papel dos britânicos em construir o império deles, ainda que isso não tenha durado muito no século XX.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/o-centenario-do-grande-levante-arabe-19477213