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Os estrangeiros descontentes

Há uma rota de imigração ilegal antiga que vem da África trazendo ilegais da Etiópia para o reino, passando pelo Iêmen

Rasheed Abou-Alsamh

Cheguei a Jedá esperando ver as ruas sem os usuais estrangeiros que trabalham aqui depois da campanha do governo contra ilegais. Mas as coisas parecem as mesmas. No sinal um africano sem um braço vai de carro em carro pedindo esmolas. Quando ele chega à janela do meu táxi, pede um rial. Eu não ia dar nada para ele, mas o seu sorriso me comove e eu lhe dou um rial.

Dias antes, chegando ao aeroporto de Jedá, cansadíssimo de uma viagem de mais de 24 horas do Brasil até o Oriente Médio, eu sou assediado por um homem saudita falando: “Táxi, táxi!” Ele é tão persistente que aceito a oferta dele e saímos para o centro da cidade no que parece ser um carro velho e particular. Tudo bem, mas minutos depois nós ficamos perdidos procurando meu hotel e já são quatro horas da manhã. Ele é parado pela polícia depois de fazer uma manobra proibida. Depois de esperar 15 minutos para os policias checaram seus documentos, ele volta para o táxi com uma multa: “Eu não tenho carteira de habilitação”, ele me diz, claramente triste com o dinheiro que haverá de pagar.

Jedá é uma cidade antiga, um porto no Mar Vermelho, e por isso tem uma longa tradição de acolher negociantes, peregrinos e visitantes de todas as partes do mundo. Por isso, a cidade é a mais cosmopolita, aberta e liberal do reino. Aqui você encontra sauditas de origem egípcia, iemenita, paquistanesa, e indonésia.

Os estrangeiros que são legais foram claramente afetados pela campanha do governo contra os ilegais. Muitos se queixam da vida aqui, dizendo que ralam muito por pouco dinheiro. Uma amiga saudita me relata como estrangeiros que trabalham no jornal onde ela é a redatora sofreram quando suas permissões de trabalhar, chamadas iqamas em árabe, não foram renovadas a tempo. Com isso, os bancos onde eles tinham contas as congelaram, deixando-os sem dinheiro para pagar o aluguel, energia elétrica e a escola dos seus filhos. “Eles realmente não planejaram isso muito bem”, diz ela do governo.

Mesmo assim, o governo se sente vitorioso no seu combate à ilegalidade, com manchetes nos jornais celebrando o fato que 50.000 etíopes ilegais já foram deportados de volta para a pobreza africana. Do dia 3 de novembro até 6 de dezembro, estima-se que quase 150.000 ilegais foram deportados.

A Arábia Saudita, com a riqueza da sua produção petrolífera, que realmente somente começou a trazer mudanças a partir dos anos 1970, fez do país um gigante ímã da região, atraindo pessoas de todos os países em volta à procura de trabalho e uma vida melhor. Por isso, há uma rota de imigração ilegal antiga que vem da África trazendo ilegais da Etiópia para o reino, passando pelo Iêmen e entrando na Arábia Saudita pela fronteira porosa com o Iêmen.

Com cerca de cinco milhões de estrangeiros trabalhando legalmente na Arábia Saudita, de uma população total de 30 milhões, essas pessoas ganham a vida como empregadas, enfermeiras, médicos, engenheiros, arquitetos, motoristas, professores e vendedores. Sem eles, dificilmente o país ia continuar funcionando normalmente. Infelizmente, ainda há sauditas que se sentem superiores aos estrangeiros, e, num excesso de xenofobia, continuam a maltratá-los.

“Eu nasci aqui e cresci aqui, mas já que meus pais são iemenitas eu não posso ser saudita”, diz-me um motorista de táxi. Outro motorista, esse do Bangladesh, está tão desesperado para deixar o reino que me pede números de mulheres nos EUA para ele se casar com uma delas. Eu falo que não conheço nenhuma disponível e, quando desço do táxi, dou um número errado para o taxista, que insiste em querer meu contato.

Os sauditas com quem eu falo parecem cansados da guerra civil na Síria, especialmente diante dos mais de cem mil mortos e dos rebeldes sírios divididos e com membros tão extremistas. Eles veem a insistência do governo saudita em dar dinheiro e armamentos para os rebeldes como alguma coisa que não vai acabar bem.

Mesmo assim, há sinais de que o governo saudita não está apostando tudo em ser contrário à Rússia e ao Irã. O governo sempre teve uma vertente da realpolitik no seu pensamento político e, por isso, ele está vendo positivamente os convites feitos pelo Irã para os lideres do Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos para visitar Teerã.

Ao mesmo tempo, ninguém soube me dizer quem está no controle da política externa do reino. “Nem eu sei quem esta mandando lá fora”, diz-me um saudita com boas fontes nos mais altos escalões do poder. Isso é preocupante. Para o momento, parece que o chefe da inteligência, o príncipe Bandar ibn Sultan, está dando as cartas. Mas isso pode mudar de um dia para o outro.

Espero que os governantes sauditas se deem conta do quanto o reino é desprezado na Síria, na Líbia e no Líbano por causa da sua ajuda financeira e militar a rebeldes extremistas. Essa política deve ser mudada rapidamente para assegurar o lugar da Arábia Saudita ao lado da justiça, e não do extremismo.

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