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Os sauditas vão às compras

Os sauditas vão às compras

O principe Bandar bin Sultan, esquerda, com o presidente russo Vladimir Putin em Moscou. (Foto cortesia RIA Novosti)

Com o Irã tentando desenvolver uma bomba atômica, os sauditas vão com certeza se sentir obrigados a adquirir mísseis nucleares dos paquistaneses

RASHEED ABOU-ALSAMH

Com o impasse no Egito entre manifestantes da Irmandade Muçulmana e os militares que derrubaram o presidente Mohamed Mursi, surpreendeu a notícia de que o príncipe saudita Bandar bin Sultan foi a Moscou se encontrar com o presidente russo Valdimir Putin (31/7) para propor um acordo e terminar com o conflito na Síria, onde a matança continua.

De acordo com a agência de notícias Reuters, citando fontes anônimas, Bandar, chefe da inteligência saudita, teria proposto a Putin que a Arábia Saudita poderia comprar até US$ 15 bilhões em armamentos russos, e, em troca, a Rússia abrandaria seu apoio ao regime de Bashar al-Assad, prometendo não bloquear futuras resoluções tomadas contra a Síria pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Os sauditas supostamente também prometeram não ameaçar as vendas de gás natural russo para a Europa com vendas de gás dos países do Golfo.

De acordo com um líder da oposição síria, Bandar tentou acalmar os temores russos de que extremistas islamitas iam substituir Bashar, e que a Síria não ia se tornar um conduto para a exportação de gás do Catar pelo Mediterrâneo para a Europa. E mais, Bandar teria prometido intensificar cooperação com a Rússia nas áreas de energia, economia e assuntos militares. Mas um diplomata ocidental em Moscou disse à Reuters que duvidava que a Rússia fosse trocar seu alto perfil na região por um contrato de armas. Talvez, mas ainda acho que a proposta saudita deve ter sido tentadora para os russos. A reunião durou quatro horas.

De acordo com Theodore Karasik, diretor de pesquisa do Instituto do Oriente Próximo e Análise Militar do Golfo, em Dubai, Putin e Bandar são velhos amigos. Desde 2005 Bandar viajava regularmente para Moscou para reuniões com Putin. Segundo Karasik, os sauditas usaram os russos como uma porta dos fundos para dialogar com o Irã. “Nós vemos que Moscou foi capaz de dar a Riad a oportunidade de falar com Teerã ou ajudar a influenciar o Kremlin a falar com o Irã sobre seu programa nuclear”, ele disse em entrevista ao Serviço de Informação Sobre as Relações Americano-Sauditas.

Historicamente, apesar de a União Soviética ser o primeiro país no mundo a reconhecer o novo reino da Arábia Saudita, em 1932, a Arábia Saudita fechou seu escritório diplomático em Moscou em 1938 e se negou a ter relações diplomáticas com a União Soviética por causa da Guerra Fria e o total desprezo dos dirigentes sauditas pelo comunismo. Relações diplomáticas somente foram retomadas em 1990, depois do colapso da União Soviética e o estabelecimento da Federação Russa. Mas os anos 1990 foram difíceis para ambos os lados, com os sauditas infelizes com as ações militares russas contra separatistas islamitas na Chechênia, e os russos acusando cidadãos sauditas de mandar dinheiro e armamentos para os rebeldes. Depois que Moscou ganhou a vantagem na Chechênia e as coisas se acalmaram, as relações russo-sauditas melhoraram muito. A visita do então príncipe herdeiro Abdullah a Moscou, em 2003, ajudou a aquecer as relações, e Putin retribuiu com uma visita oficial a Riad em 2007.

Karasik diz que os dois países viram uma convergência de interesses no Oriente Médio depois dos ataques sofridos pelos sauditas em 2003-2007 por terroristas ligados à Al-Qaeda. Também houve interesse dos dois lados de formar uma Opep para o gás, mas os dois lados não puderam concordar nos termos. E ele vê esse ultimo encontro de Bandar com Putin como o jeito de os sauditas deixarem bem clara sua posição sobre a Síria, e também para encher o vácuo deixado no Oriente Médio pelos EUA e União Europeia com sua inação na Síria.

É interessante que Karasik ache que os sauditas também estão ansiosos com o percebido giro nas atenções americanas do Oriente Médio para a Ásia. A retirada das tropas americanas do Iraque e, até o ano que vem, do Afeganistão, é vista como um abandono americano dos estados do Golfo e suas tentativas de conter o poderio xiita do Irã na região. “Os países do Golfo pensam que estão sendo abandonados por Washington em favor da área do Pacífico”, ele explicou. “Isso é a percepção deles, independentemente da quantidade de equipamentos militares que estão posicionados na região ou de quantos programas de treinamento militar ou vendas de armas estão acontecendo”.

Ainda por cima disso tudo, os países do Golfo sempre ficam com medo que os EUA um dia entrem em um acordo com o Irã, especialmente agora que o novo presidente iraniano, Hassan Rouhani, já tomou posse. “A Arábia Saudita e o Conselho de Cooperação do Golfo sentem que estão sendo lentamente puxados para o lado no que diz respeito a eles na região por causa dos interesses dos EUA”, disse o analista.

No fim das contas, o que sabemos com certeza é que a Arábia Saudita e a Rússia têm um interesse estratégico de não deixar a guerra civil na Síria se alastrar pelo Oriente Médio. Os sauditas querem ver Bashar fora do poder, e, como os russos, não quer ver um estado islamita e radical se formar na Síria. Acho muito difícil a Rússia retirar seu apoio a Bashar, já que o país já investiu tanto do seu prestigio em alavancar o ditador sírio.

Também acho insensato a Arábia Saudita oferecer comprar tantas armas dos russos. A última coisa que os sauditas precisam é de mais armas. A corrida de armas na região já atingiu níveis estratosféricos, e, com o Irã tentando desenvolver uma bomba atômica, os sauditas vão com certeza se sentir obrigados a adquirir mísseis com ogivas nucleares dos paquistaneses. Nessa região tão instável, a última coisa que precisamos seria uma guerra nuclear, o que seria apocalíptico.

URL: http://glo.bo/1bhMZGL