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Procurando meu pai

Procurando meu pai

Na última sexta, parei no meio da seção islâmica do cemitério Campo da Boa Esperança em Brasília e procurei o túmulo de meu pai. Meu primo Yasser, da Arábia Saudita, me fazia uma visita e queria rezar pelo “tio Mohamed”, como ele colocou.

Amanhã, 2 de dezembro, será o aniversário de um ano da sua morte. Ainda me lembro do dia em que enterrei meu pai: estava chovendo loucamente e havia pequenos rios de lama enquanto colocávamos na sepultura seu corpo embrulhado em algodão e os trabalhadores selavam-na com uma laje de concreto.

Mas agora, um ano depois, não pude me lembrar exatamente onde o havíamos colocado. Andei em volta das lápides, lindas peças de granito escuro com marcações dos nomes dos falecidos, suas datas de nascimento e morte e algumas citações do Sagrado Alcorão. Havia vários túmulos sem lápides, mas eu ainda sim não conseguia descobrir qual era o do meu pai. No meio do luto no dia em que ele morreu e que o enterramos, minha mente foi incapaz de notar essas coisas.

“Isso é normal”, disse Valdete, uma amiga brasileira, quando eu disse mais tarde a ela no telefone que não pude lembrar onde havíamos enterrado meu pai. “Você estava tomado pela dor. É normal não se lembrar desses detalhes”.

A seção islâmica do cemitério de Brasília está separada do restante do cemitério por uma cerca e um grande pilar de mármore com uma lua crescente no topo, próximo a uma placa de cimento que diz “Cemitério Islâmico”. Quando havia passado no escritório de administração do cemitério logo na entrada e perguntado a eles se sabiam onde meu pai estava enterrado, um funcionário havia me dado um mapa para o local inteiro e me mostrado como chegar à seção onde os islâmicos eram enterrados. Ele lamentava ter que me dizer que apenas o Centro Islâmico de Brasília poderia me informar onde meu pai descansava. Ironicamente, o mapa mostrava os “Israelitas”, ou judeus, sendo enterrados a uma pequena distância dos muçulmanos, com os corpos de católicos separando os dois grupos.

Exatamente como os judeus, os muçulmanos não devem colocar flores nos túmulos de seus entes queridos. Na entrada do cemitério, vi uma mulher vendendo uma enorme grinalda de flores, e então parei e perguntei a ela o preço, somente por curiosidade.

“Cento e cinqüenta reais”, ela disse, citando um preço absurdo. “E posso escrever qualquer coisa que você queira nela”. Educadamente recusei.

A falta de uma lápide com seu nome no túmulo de meu pai não significa que eu e minha mãe o tenhamos esquecido. Longe disso. Há fotos deles por toda a nossa casa, e pequenos lembretes de que ele estava conosco até recentemente.

Caixas de seus livros estão no quarto vago de minha pequena casa, assim como novíssimos pares de cuecas de algodão ainda empacotadas que meu pai costumava comprar em grandes quantidades.

Eu vinha lembrando a minha mãe durante o último ano que devíamos visitar meu pai no cemitério e garantir que seu túmulo estava em ordem.

“Não diga ‘visitar’”, minha mãe finalmente estourou em um tom que era mais de cansaço do que de raiva. “Ele está em outro lugar agora, não no cemitério”.

Sempre fui o mais sentimental na minha família e, por isso, a preocupação com o estado de seu túmulo e o plano de uma lápide com seu nome gravado vieram naturalmente para mim.

Não encontrar o lugar de meu pai no cemitério me poupou de quaisquer lágrimas dessa vez, embora eu tenha sentido um pequeno aperto na garganta quando me postei próximo a Yasser enquanto ele rezava, de pé, pelo meu pai, recitando o verso Al-Fatiha do Alcorão. Obtive conforto do fato de que um parente de sangue havia percorrido todo o caminho desde a Arábia Saudita para rezar por meu pai falecido e sua alma.

Quando meu pai havia morrido, tínhamos lavado seu corpo no Centro Islâmico e então rezado ao lado dele na mesquita. Mas não havia parentes além de mim e minha mãe. Eu teria sentido muito mais conforto se todos os seus parentes estivessem lá para rezar e lamentar comigo.

Eu agora tenho de achar onde exatamente ele está enterrado e providenciar uma boa capa e uma lápide de granito para ele. É o mínimo que posso fazer pela sua memória.

 

Comments (1)

  • Alisson Costa

    Rasheed,

    Tem quase uma ano que você escreveu o texto “Procurando meu pai”. Espero que você já tenha encontrado o local certo onde ele foi sepultado.
    Depois que li fiquei pensando: “Será que se eu tivesse ido ao sepultamento do pai do Rasheed eu me lembraria do lugar exato?”. Mas não fui, não me recordo o motivo agora…
    O que você relata, de ter não saber onde seu pai está sepultado, me faz lembrar que eu também não sei onde o meu pai foi sepultado há 46 anos atrás. No lugar também não colocamos nenhuma lápide com granito…
    Como eu era bem pequeno quando ele morreu – tinha apenas oito anos de idade -, não tenho muitas lembranças dele. Mas lembro de algumas coisas, como as pescarias que ele adorava e de vez em quando me levava junto com meu irmão mais velho. Só me recordo do rosto dele graças a umas poucas fotografias que temos no álbum da família.
    Certa vez eu li em algum lugar uma frase, acho que do filósofo romano Cícero, que “a vida dos mortos está na memória dos vivos”…

    Abraços!

    Alisson Costa

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