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Rearranjo real

A morte do príncipe herdeiro traz uma nova velha face à política na Arábia Saudita

Rearranjo real

O principe herdeiro Nayef ibn Abdel-Aziz

 A morte, aos 86 anos, do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Sultan bin Abdel-Aziz, no início da manhã de 22 de outubro em um hospital de Nova Iorque e ao final de uma longa batalha contra o câncer, deixou o rei Abdullah em uma estranha posição: deve ele indicar seu meio irmão, o príncipe Nayef, que é segundo vice-premiê e ministro do Interior, como o novo príncipe herdeiro? Ou deve ele convocar o Conselho da Aliança para ajudá-lo a escolher?

Talvez uma questão mais importante seja: quais príncipes seniores terminariam com cargos estratégicos após a reorganização do gabinete esperada para breve?

Observadores do reino estavam divididos acerca de qual processo a família real Al-Saud utilizaria em uma situação nova como esta, em que o príncipe herdeiro morreu antes do rei, algo que nunca havia acontecido desde a fundação da Arábia Saudita em 1932. Mas uma coisa sobre a qual eles concordavam era que Nayef, de 77 anos, seria provavelmente nomeado príncipe herdeiro.

Sultan e Nayef eram irmãos plenos, filhos da esposa favorita do rei Abdel-Aziz, Hessa Al-Sudeiri, e parte da facção da família real conhecida como os Sete Sudeiri. Os príncipes desse grupo formam um bloco de voto poderoso no Conselho da Aliança, bloco que o rei Abdullah não poderia facilmente derrotar caso houvesse uma discordância a respeito de quem deveria ser o próximo príncipe herdeiro.

Mas a maior parte dos analistas não espera que surjam faíscas agora ou no futuro próximo da família real, que sempre usou o consenso e o critério da senioridade para chegar a decisões aceitas pela maioria dos príncipes — cujo número, estima-se, chega a pelo menos 7.000.

“Os Al-Saud são uma formidável máquina de consenso. Sua força tem sido a habilidade para criar governos de coalizão representando diferentes pontos de vista intrafamiliares que refletem, em larga medida, o liberalismo minoritário e o conservadorismo majoritário da população saudita como um todo”, disse Robert Lacey, autor de dois livros sobre o reino e observador da família real há mais de 30 anos.

O rei Abdullah criou o Conselho da Aliança em 2006 para codificar o que havia sido, até então, uma tradição não formalizada de regras de sucessão. Formado pelos filhos ainda vivos do rei Abdel-Aziz, o fundador da Arábia Saudita, bem como por seus netos, o conselho tem 34 membros. A Lei de Instituição da Aliança, que criou o conselho, tem 25 artigos estabelecendo em detalhe como o novo príncipe herdeiro deve ser escolhido e afirma até mesmo que um conselho de transição deve assumir o controle do país no caso improvável de que tanto o rei como o príncipe herdeiro morram, ou estejam incapacitados para o cargo, ao mesmo tempo. No artigo 7, seção B, lemos que:  “O rei pode solicitar à Instituição da Aliança que indique um príncipe herdeiro apropriado a qualquer momento. Caso o rei rejeite o indicado pelo comitê, a Instituição da Aliança realizará uma votação para escolher entre o candidato do rei e o seu próprio. O indicado que assegurar a maioria dos votos será nomeado príncipe herdeiro.”

O dilema em que o rei se acha deriva do fato de que o Conselho da Aliança nunca foi usado antes em sua forma nova, institucionalizada, o que, segundo analistas, exerce certa pressão para que Abdullah, de 88 anos, utilize-o e garanta que ele funcione sem maiores problemas.

“Existem aqueles que dizem que o novo procedimento para o Conselho da Aliança só deveria passar a operar após as mortes do rei Abdullah e do agora falecido príncipe herdeiro Sultan, de modo que o rei poderia ainda indicar seu favorito para príncipe herdeiro sem convocar o conselho”, explicou Lacey. “Suspeito que o rei vá querer utilizar o processo — que foi ideia sua — para consolidá-lo. Afinal de contas, é o que existe de mais próximo a uma verdadeira democracia na Arábia Saudita – um príncipe, um voto.”

Também há uma enorme pressão sobre a família real para decidir quem sucederá Nayef uma vez que este se torne rei. A maior parte dos príncipes seniores estão na casa dos setenta ou oitenta e tantos, e nenhum jogador destacado apareceu ainda na segunda geração de príncipes.

“O desafio diante do rei e da família real é decidir quem vem depois de Nayef. Muita coisa permanece desconhecida. Os príncipes seniores escolherão outro meio irmão ou tomarão a difícil decisão de passar o poder à próxima geração? Pelo que sabemos dos instintos políticos de Abdullah, ele provavelmente prefere a última opção”, disse Toby Craig Jones, professor assistente de História na Universidade Rutgers e especialista em Arábia Saudita. “A não ser que algo notável aconteça e a família passe por cima de Nayef nesse momento, a verdadeira questão é quem será o segundo vice-primeiro-ministro. Abdullah pode não utilizar o Conselho da Aliança dessa vez, mas qualquer decisão será o resultado de consulta e consenso familiar. Se a decisão demorar um pouco, isto pode ser um sinal de divisões nos níveis seniores da família.”

O príncipe Nayef ocupa o Ministério do Interior desde 1975 e tem a reputação de ser um conservador duro e temido, que já se pronunciou contra a permissão de voto para mulheres, prendeu reformistas e liderou uma luta sangrenta contra terroristas da Al-Qaeda na última década. Inicialmente, após os ataques de 11 de Setembro, ele não acreditou que a maioria dos sequestradores fossem sauditas. No entanto, quando a Al-Qaeda começou a lançar ataques terroristas no reino em 2003, ele tornou-se seu inimigo implacável.

O rei Abdullah indicou Nayef como segundo vice-premiê em 2009, quando o príncipe herdeiro Sultan já passava longos períodos no exterior para tratamento médico. Ainda que não tenha sido formalmente anunciado como tal, a indicação pressupunha tacitamente que a posição eventualmente levaria Nayef à condição de príncipe herdeiro.

Opiniões se dividem a respeito das possibilidades de que Nayef continue a ser linha dura como rei ou, ao contrário, se mova gradualmente para o centro, não dissolvendo as reformas que Abdullah instituiu, tais como a concessão do direito de voto às mulheres em 2015 e a permissão de indicação das mesmas ao Conselho Shura.

“Muitos estão compreensivelmente preocupados a respeito de Nayef e seu apoio aos elementos mais conservadores do establishment religioso. Mas os Al-Saud não sobreviveram por haverem escolhido e recompensado continuamente um único grupo. O Conselho Ulema conservador pode ter a dianteira agora, mas, caso ele se torne demasiadamente poderoso, Nayef corrigirá suas ambições, da mesma forma que faria com qualquer outro grupo”, disse Jones.

Na verdade, Lacey considera que as credenciais conservadoras de Nayef permitirão que ele faça coisas que os outros não foram capazes de realizar.

“O príncipe Nayef sempre operou e continuará a operar segundo o consenso dos Al-Saud em torno do projeto de modernização gradual no contexto de tradições conservadoras”, afirmou Lacey. “Mas prevejo que, assim como foi necessário um conservador, Nixon, para estabelecer relações entre os Estados Unidos e a China, caberá a Nayef, como líder dos conservadores sociais e religiosos, avançar reformas como a do direito de dirigir para as mulheres. É minha previsão que as mulheres sauditas ainda dirigirão durante o reinado de Nayef.”

Decisões importantes precisam ser feitas quanto a quem será o novo ministro da Defesa. O filho de Sultan, príncipe Khaled bin Sultan, vice-ministro da Defesa durante os últimos dez anos, é um candidato potencial. Outro candidato é o governador de Riad, príncipe Salman, irmão pleno de Nayef e terceiro membro mais poderoso da família real.

Cargos estratégicos no governo foram cuidadosamente divididos entre os vários grupos de poder na família real. Questões externas têm sido, na sua maior parte, administradas pelo ministro do Exterior, príncipe Saud Al-Faisal, enquanto o príncipe Nayef e seus dois filhos, que são vice-ministros do Interior, gerem a segurança interna e assuntos como o trato com os xiitas no Bahrein. O rei Abdullah e seus filhos estão no comando da Guarda Nacional, uma força formada na sua maior parte por beduínos e criada como contrapeso ao exército regular, este uma espécie de força de proteção da família real contra qualquer possível insurreição.

Não obstante, nenhum analista acredita que haverá quaisquer grandes mudanças no modo como o reino é administrado, todos enfatizando que a família real preza a estabilidade e a continuidade acima de tudo. O que a família real continuará a enfrentar é um establishment religioso tão conservador que se recusa a discutir assuntos como a permissão de mulheres para dirigir e a proposta de educação mista na recém-inaugurada Universidade Abdel-Aziz para Ciência e Tecnologia.

“O establishment religioso certamente tentará conter o fluxo da ocidentalização e do que veem como ameaça aos valores islâmicos tradicionais”, disse Lacey. “O que chamamos de ‘reformas’, eles percebem como ‘corrupções’ — meninos e meninas jovens e atrevidos querendo fazer valer sua vontade —, e muitos dos homens sauditas, assim como algumas mulheres, concordam com essa percepção.”