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Sauditas surpresos com campanha anticorrupção

O hotel Ritz-Carlton em Riad on os presos VIP estao acomodados.

Esta coluna foi publicada no O Globo de 10/11/2017:

Por Rasheed Abou-Alsamh

Príncipe herdeiro está com muita pressa para fazer reformas

A prisão de 11 príncipes, quatro ministros, dezenas de ex-ministros e vários empresários bilionários sauditas na noite de sábado deixou a maioria da população surpresa e apreensiva com o que isso poderia significar.

A ordem das prisões veio do recém-formado comitê anticorrupção liderado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. O príncipe Miteb bin Abdullah, que chefiava a Guarda Nacional, foi demitido e preso; e o ministro da Economia e Planejamento, Adel Fakeih, também foi deposto e preso. Mas o nome que causou mais espanto por estar na lista de detidos foi o do príncipe Alwaleed bin Talal, um empresário bilionário, que detém participações acionárias em várias empresas gigantes como Apple, Citibank, 20th Century Fox e Twitter, e é dono de vários hotéis de luxo em Londres e Paris. A revista “Forbes” estima a fortuna de Alwaleed em US$ 17 bilhões.

Entre os detidos estão Alwalid al-Ibrahim, dono da rede de televisão por satélite MBC, que era próximo ao rei Fahd bin Abdulaziz; Amr al-Dabbagh, ex-chefe da Autoridade Saudita para Investimentos Gerais; Ibrahim al-Assaf, ex-ministro das Finanças; Bakr Bin Laden, chefe da construtora Bin Laden, e Saleh Kamel, um empresário bilionário, que é chefe do conglomerado Dallah Albaraka Group.

Entre as razões alegadas pelo governo saudita para as prisões estão as inundações em Jidá em 2009, e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers), causada por um vírus ligado a camelos, que deixou centenas de mortos e mais de mil doentes desde o primeiro surto, em 2012.

Fakieh foi prefeito de Jidá de 2005 a 2010. As inundações mataram 123 pessoas e destruíram 11.929 casas e 10.321 veículos. Um ex-prefeito de Jidá, que comandou a cidade antes de Fakieh, foi condenado a cinco anos de reclusão em 2012 pelo Tribunal Administrativo de Jidá e multado em 100 mil riais. Durante o julgamento, segundo o “Arab News”, o juiz perguntou ao réu que medidas ele tinha tomado quando se deu conta de que um cano de mil metros, que custara 70 milhões de riais, tinha sido instalado no local errado. O réu disse que escreveu uma carta para um departamento do governo, mas o juiz mostrou a ele uma copia da mesma, na qual não havia menção alguma ao fato de o cano estar no lugar errado. O jornal não citou o nome do ex-prefeito.

Foi um passo arriscado do rei Salman demitir o príncipe Miteb bin Abdullah da chefia da Guarda Nacional. A versão moderna desta força militar foi constituída em 1954. Seu papel sempre foi defender a família real de possíveis rebeliões militares. Por décadas, a corporação foi comandada por gente ligada ao rei Abdullah bin Abdulaziz. O rei Salman já tinha tirado do príncipe Mohammad bin Nayef, em junho, a condição de príncipe herdeiro, e ele continua em prisão domiciliar no seu palácio em Jidá.

Ha relatos de descontentamento na família real, mas nada veio a público até agora. A família costuma tomar decisões importantes por consenso. Isso faz com que às vezes as determinações demorem muito tempo.

Mas o príncipe herdeiro está com muita pressa para fazer reformas econômicas e sociais, em tempo recorde para o reino conservador. Em setembro, o rei Salman emitiu um decreto dando às sauditas o direito de dirigir a partir de junho 2018. A decisão surpreendeu muitos cidadãos, que achavam que não viveriam para ver isso. Meses antes, o príncipe herdeiro lançou o plano Visão 2030, para fazer reformas econômicas e tentar reduzir a dependência do petróleo.

Numa entrevista ao “Gulf News”, a historiadora e feminista Hatoon al-Fassi disse: “Estamos em choque. Com certeza, há uma aprovação popular maciça ao fato de que a liderança não está deixando de fora nenhum grande nome ou pessoa influente acusada de corrupção ou abuso de poder. As prisões de pessoas de alto escalão, que eram considerados intocáveis, transmitiram um sentimento esmagador de que a Justiça pode achar seu caminho, e que ninguém esta acima dela.”

O mercado financeiro saudita na manhã de domingo não reagiu bem às notícias. As ações do Kingdom Holdings e do príncipe Alwaleed despencaram 9,9%. Ações em outras empresas nas quais o príncipe tem participação também caíram, e o Banque Saudi Fransi teve queda de 2,8%. Alwaleed comprou uma participação de 16,2% no banco em setembro. Mas a Bolsa reagiu ao longo do dia e fechou com pequena alta em relação à abertura.

Em setembro, vários clérigos, intelectuais e ativistas populares em redes sociais foram presos. Isto foi visto como um recado do príncipe herdeiro de que ele não ia tolerar absolutamente nenhuma discordância em relação às suas reformas. Algumas semanas atrás, ele anunciou numa conferência de investimentos na capital, Riad, que o país ia seguir um Islã moderado e mais flexível. Isso surpreendeu quem estava acostumado a ver a ala religiosa exercer poder sobre toda a população. Os sauditas já estão sentindo as mudanças. A atuação da severa polícia religiosa foi restrita, e o governo agora traz ao país espetáculos a que homens e mulheres podem assistir juntos.

Mas a renúncia do primeiro-ministro libanês Saad Hariri — em Riad, no sábado, alegando que não podia mais trabalhar com o Hezbollah no governo por causa da intromissão do Irã nos assuntos internos do Líbano — lembrou a todos que o reino ainda enfrenta problemas em seu relacionamento com Teerã, capital do rival regional. O abatimento de um míssil lançado pelos houthis iemenitas sobre Riad, também sábado à noite, foi o outro lembrete da guerra civil devastadora no Iêmen, que se alastra há mais de dois anos. Os sauditas anunciaram no domingo que o míssil que abateram usando mísseis Patriot era de fabricação iraniana. Moradores da capital relataram na internet que a explosão sacudiu casas e foi ouvida na centro da cidade.

Vamos ter que esperar para ver os resultados desta campanha moralizadora no reino. Tomara que abra uma nova era num país onde a corrupção viveu e cresceu por tempo demais.

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