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Vivendo atrás de cercas eletrificadas em Brasília

Vivendo atrás de cercas eletrificadas em Brasília

Há vinte anos, ninguém as tinha. Agora, praticamente toda casa no Lago Sul as tem: cercas eletrificadas, carregadas com até 8000 volts, para impedir que ladrões invadam seus lares.

Brasília tem sofrido de uma onda de criminalidade nos últimos anos. Parte desse crescimento do crime pode ser atribuída à demografia. O Distrito Federal, que abarca a capital e todas as suas cidades satélites e áreas do entorno, tem visto uma explosão em número de habitantes. Há agora mais de 2 milhões de pessoas vivendo no DF, muitas delas pobres atraídos pela maior renda per capita do país e pela esperança de se dar bem pelo trabalho duro ou de enriquecer pelo crime.

Sequestros relâmpagos são tristemente comuns em Brasília. Eles ocorrem quando criminosos rendem uma pessoa em seu carro, tomando posse de seu veículo e forçando o proprietário a acompanhá-los para uma volta. Os criminosos normalmente roubam qualquer coisa de valor que possam achar com a pessoa e frequentemente levam-na a um caixa eletrônico para tomar dela mais dinheiro.

Há algumas semanas, em um curso que estava fazendo, conheci uma mulher jovem e descolada, colega jornalista, de quem gostei imediatamente. No segundo dia do curso, notei que ela não estava lá e me perguntei onde ela poderia estar. Ela finalmente apareceu às 10 da noite, apenas uma hora antes do fim da sessão daquele dia. Parecia bastante cansada e maltratada, mas ela sorriu quando a cumprimentei. O que eu não soube até o dia seguinte é que ela havia sido vítima de um seqüestro relâmpago naquela noite, em frente ao prédio em que nosso curso estava ocorrendo e logo após sair de seu carro.

“Dois homens apareceram de repente, cada um por um lado, e apontaram armas para mim”, relembrou Rafaela quando contou a toda a classe a sua provação. “Eles me puseram no banco do passageiro e um deles, então, sentou no banco de trás com uma arma constantemente apontada para minha cintura”.

“Comecei a chorar e implorei a eles para que me deixassem ir. Mas eles não deixaram. Continuamos a dirigir e eles até foram ao posto de gasolina e usaram meu dinheiro para encher o tanque”, ela comentou. “Me disseram que usariam meu carro em alguns assaltos e então o deixariam em algum lugar”.

“Quando estavam cansados de dirigir, me deixaram na rua. Um deles teve pena de mim e até me deu 5 reais para que eu pegasse um ônibus”, Rafaela explicou.

Eles roubaram os 200 reais que ela tinha em sua carteira. Mesmo dias após o crime, a polícia ainda não encontrou seu carro.

Muito do crime no Brasil é alimentado pelas enormes disparidades econômicas entre classes sociais. No mesmo dia em que posso ver os mais caros carros Mercedes e BMW nas ruas da capital, vejo também crianças descalças pedindo dinheiro nas ruas. Sendo o Lago Sul o bairro de classe mais alta em Brasília, as pessoas aqui estão ameaçadas por essa onda de crime e sentem que devem se proteger por meio de agressivos cães de guarda e cercas eletrificadas com cargas de 8000 volts.

Mas a proliferação de drogas baratas, especialmente crack e cocaína, também é responsável pela criminalidade crescente. Há apenas algumas semanas, um casal ao estilo Bonnie e Clyde foi finalmente preso após roubar cinco carros em uma noite, matar o proprietário de um dos carros e ferir outro. Já há um ano eles vinham roubando carros enquanto usavam crack. Após circularem com os carros, abandonavam-nos em um campo vazio nos arredores de Brasília e os incendiavam.

Muitos brasileiros também estão irritados com um sistema judiciário que, acreditam eles, acaricia os criminosos. Não há pena de morte, e a punição máxima é a prisão pelo resto da vida, o que normalmente significa 30 anos.

Não apenas isso, mas os oficiais do sistema penitenciário permitem regularmente que criminosos perigosos passem tempo com suas famílias durante os feriados. No último sábado, dois destes criminosos, que haviam sido liberados para a Páscoa, foram presos numa cidade satélite após roubarem diversas lojas e um carro e passarem por cima de um bloqueio policial feito para pará-los. Um deles estava na cadeia condenado por três homicídios! Como se pode deixar que alguém assim saia sem esperar que ela retorne imediatamente a uma vida de crime? Isso é o que muitos residentes do Distrito Federal se perguntam.